SSF/RIO

Os tempos sociais, a sociologia e a história.

 

 

DDHH, Direitos Sociais e Pluralismo

Jacob (J.) Lumier


 

Os tempos sociais e a sociologia do saber histórico ([i])

 

Por Jacob (J.) Lumier

 

 

As amplitudes e os tempos

 

Para compreender em modo preliminar a noção do tempo de que fazemos a experiência, há que assumir a situação pragmática do homo faber; basta ter em conta as sociedades históricas, onde a realização do desejo é vivida como não-imediata. Entre desejo e realização há um hiato que toma o tempo dos humanos em vias de fazer algo.

Quando se pesquisa o problema do tempo do ponto de vista de sua descoberta nos quadros sociais é a situação do homo faber em suas variedades que vem a ser elucidada mediante a descrição sociológica.

Em realismo sociológico, quer se trate de amplitudes ou de tempos, a percepção que se tem é de “natureza” coletiva, e suas manifestações fazem aparecer uma grande multiplicidade de caracteres, da qual decorre a variedade de imagens do mundo exterior nos diversos quadros sociais.

Na reflexão coletiva de que participamos por condição humana, o passo inicial é constatar a efetividade do conhecimento perceptivo dos tempos e das amplitudes em que se imbricam os objetos do mundo exterior – sobre os quais operam nossa experiência do desejo e sua realização. Incluindo os Nós, os grupos, as classes sociais, as sociedades – os temas coletivos reais (temas constitutivos das mentalidades coletivas) compreendem as amplitudes concretas que integram a seleção perceptiva dos objetos conforme os critérios coletivos.

Desta forma, o conhecimento perceptivo do mundo exterior afirma como verdadeiro um conjunto coerente de imagens imbricadas em amplitudes e tempos concretos e específicos; sua percepção, a possibilidade de conceituá-las e quantificá-las são muito variáveis.

Sem embargo, as amplitudes e os tempos estão entre os obstáculos que suscitam a manifestação e a tomada de consciência dos temas coletivos reais como sujeitos.

Podem compreender isto se tiverem em conta que, no quadro da sociedade feudal, o conhecimento perceptivo do mundo exterior tinha como expressões a “ausência de perspectiva na arte, o plissado das cidades e dos povoados em si mesmos, em sua arquitetura e sua disposição”, estando assim em acordo com o caráter fechado da mentalidade coletiva naquele tipo de sociedade global.

As diversas tomadas de consciência dos temas coletivos reais, como sujeitos da reflexão, colocam em perspectivas a realidade da amplitude.

Em realismo sociológico há uma “diferença essencial” entre amplitude e tempo. A multiplicidade dos tempos se impõe independentemente de toda a tomada de consciência do tempo, enquanto a pluralidade das amplitudes não.

Quer dizer, a amplitude onde está imbricado o mundo exterior assim como o mundo social (que inclui a amplitude correspondente à base morfológica, esta frequentemente designada infra-estrutura, mundo dos produtos, o prático-inerte, etc.), tomada como a realidade, isto é, uma amplitude independente de toda a tomada de consciência, não pode ser senão uma amplitude única. Qualquer outra interpretação introduziria uma mística de muitos mundos visíveis e invisíveis, que só teria validade para uma sociedade arcaica. A pluralidade de amplitudes só pode ser admitida como resultante da intervenção de diversas percepções, simbolizações, conceituações, etc.[ii]

Quer dizer, as diversas tomadas de consciência dos temas coletivos reais, como sujeitos da reflexão, colocam em perspectivas a realidade da amplitude. Estas perspectivas recíprocas, por sua vez, não são ilusões porquanto constituem as vias de aproximação até a amplitude real única, como a qualidade apreendida dos objetos, sua cognoscibilidade, seu “mediu oculto”. Tais vias são as amplitudes concretas, as extensões que, no dizer de George Gurvitch, Bérgson tratou como distintas de sua quantificação em espaços [iii].

Em nossa época de técnicas novas a diversificação das amplitudes tende a ser restrita.

A produção do conjunto coerente de imagens do mundo exterior, objeto do conhecimento perceptivo, implica amplitudes e tempos (onde as imagens estão imbricadas) aptos para combinarem-se, até para unificarem-se, assim como para chocar-se ou entrar em competição; que podem converter-se em polares, assim como em complementares, etc., porém, suas relações seguem sendo sempre tensas e ambíguas.

Em nossa época de técnicas novas, a diversificação das amplitudes tende a ser restrita. As amplitudes “que se afrouxam ou se estreitam sem dificuldades” se confundem aos “meios de comunicação”, que incluem as amplitudes difusas e as concêntricas, estas “naturalmente” ligadas às máquinas.

Aliás, as amplitudes prospectivas (abertas em direção “ao que vem” ou ao que é em vias de se fazer) estão muito ligadas às máquinas, a tal ponto que tendem para voltar a ser amplitudes concêntricas – como o são as amplitudes áuticas -, ao invés de se manterem parelhas às “amplitudes que se afrouxam ou se estreitam”.

Resumindo, em nossa época, as perspectivas dos temas coletivos reais, como perspectivas recíprocas, são mais subjetivas, mais voltadas para si próprias e não muito flexíveis, indicando a coerência de imagens pouco atrativas do mundo exterior, impostas de fora para dentro.

Para encerrar, observa-se que a “sociologia do conhecimento perceptivo” se encontra ante uma extrema variedade de imagens do mundo exterior, atribuída ao fato de que “tanto os critérios de medida das amplitudes e dos tempos, como os da coerência mesma do mundo exterior, frequentemente sofrem mudança quando se passa de uma sociedade a outra”.

 

►A multiplicidade dos tempos sociais

 

 

Há que evitar discutir as interpretações subjetivistas e objetivistas do tempo, e se deve evitar, igualmente, qualquer tomada de posição a propósito da primazia do “tempo da consciência” ou do “tempo do mundo”.

 

O problema da multiplicidade dos tempos sociais é considerado um dos problemas centrais desse novo ramo da sociologia que se chama sociologia do conhecimento.

É a questão da variedade das maneiras de apreender, perceber, simbolizar, e de conhecer o tempo, nos diferentes quadros sociais com os quais estão em correlações funcionais as diferentes classes de conhecimento.

Não se trata de um problema artificial, mas avançar na reflexão de uma situação de fatos com grande impacto no século XX: a situação de que, sob a influência do impressionante desenvolvimento das técnicas de comunicação, passamos num abrir e fechar de olhos pelos diferentes tempos e escalas de tempos inerentes às civilizações, nações, tipos de sociedades e grupos variados.

A unidade do tempo revelou-se ser uma miragem, como nos mostraram tanto a filosofia (Bérgson e seu realismo temporalista) como a ciência (Einstein e sua descoberta da dilatação do tempo). Ficou claro que a unificação dos tempos divergentes em conjuntos de tempos hierarquizados, sem o que é impossível nossa vida pessoal, a vida das sociedades e nossa orientação no mundo, não é uma unidade que nos é dada, mas uma unificação a adquirir pelo esforço humano, onde entra a luta para dominar o tempo, dirigi-lo de certa forma[iv].

A definição de tempo deve pôr em relevo sua descoberta, deve ser, pois, descritiva, e deve evitar, igualmente, qualquer tomada de posição a propósito da primazia do “tempo do mundo” ou do “tempo da consciência”.

 

A definição descritiva, pondo em relevo sua descoberta, toma o tempo “ora como coordenação, ora como disparidade dos movimentos”. Coordenação e disparidade essas que duram na sucessão e se sucedem na duração.

 

Em sociologia, não podem tomar parte “nem na justificação do tempo, nem na sua abolição em favor da eternidade”. Georges Gurvitch propõe uma definição que, simplesmente, tende a situar-se fora, (a) quer da concepção clássica de Aristóteles, em que o tempo é o número do movimento – concepção esta que, pela redução do tempo ao número e pela integração dos números numa série, afirma que só existe um único tempo; (b) quer da concepção de Santo Agostinho, com sua fórmula do “eu sei o que é o tempo se não mo perguntarem”, já que, para os seguidores deste filósofo, cultivando a continuidade, o tempo seria duração contínua do vivido.

De fato, o privilégio do descontínuo ou da medida eliminaria qualquer movimento ou sucessão no tempo, e, por esta via, se situaria fora da concepção de Aristóteles, tanto quanto fora da concepção dos seus oponentes, para quem o tempo possui um elemento qualitativo e nem sempre é mensurável, muito menos quantificável.

A definição descritiva, pondo em relevo sua descoberta, toma o tempo “ora como coordenação, ora como disparidade dos movimentos”. Coordenação e disparidade essas que duram na sucessão e se sucedem na duração.

A respeito desse problema da definição descritiva, Gurvitch remarca que Jean Piaget interpreta inadequadamente a coordenação como uma “ordem dos tempos”, sem considerar as disparidades dos movimentos.

A coordenação pelo tempo deve ser entendida simplesmente como correspondência, como encontro de movimentos ou simultaneidade, como paralelismo de movimentos, haja vista as disparidades dos movimentos fazendo sobressair que existe uma “multiplicidade de ordens de sucessão” e não apenas “uma ordem de sucessão sempre reversível”, como característica do tempo operativo.

Em sociologia, a possibilidade mesma de uma oposição entre “o tempo intuitivamente apreendido” e “o tempo operativo” não é aceita.  Mostra-se contestável que o primeiro seja exclusivamente referido “aos esforços realizados e às mudanças ressentidas”, e que o segundo seja sempre “inteiramente construído”.

Essa característica é atribuída por Piaget em razão do tempo operativo sentido como ligado a “uma ordem de sucessão sempre reversível”.

Para ultrapassar a dualidade e chegar à multiplicidade dos tempos há que levar em conta a dialética entre sucessão e duração, continuidade e descontinuidade, instante e homogeneidade.  Por essa dialética, se afirma que a maior parte dos tempos se situa nos graus intermediários entre a irreversibilidade intuitiva e a reversibilidade operativa do tempo.

Como se verá na sequência, Gurvitch empreende a análise e a descrição da multiplicidade dos tempos observando certos resultados de Bérgson e passando-os pela crítica, a fim de apresentar o realismo temporalista desde o ponto de vista sociológico [v]·

 

 


 

 

 

O Realismo Temporalista

 

Bérgson reconheceu e descreveu uma multiplicidade de tempos: Cada um seria qualitativo e quantitativo em graus diferentes, tempos descontínuos e contínuos que se encontrariam tão bem na experiência imediatamente vivida como nos mundos, planos ou universos construídos pelas ciências.

 

⟹ Podemos enumerar algumas observações seguintes: (a) O construído das ciências, aí compreendidas as suas temporalidades conceituadas, pode basear-se sobre o vivido dessas temporalidades; (b) A matéria, a vida, o psíquico e o social se situam em diferentes graus do tempo qualitativo; (c) Há compromisso entre o tempo qualitativo e o tempo quantitativo, entre experiência interna e experiência externa; (d) Há possibilidade de medir indiretamente o tempo qualitativo; (e) A afirmação da existência de conjuntos reais é admitir uma preexistência matemática do futuro no presente.

Na verdade, Gurvitch aprecia o realismo temporalista como uma orientação na discussão da causalidade, como tema. Em Bérgson, o mundo real se enclausura no abismo que se abre entre a duração qualitativa e o tempo-espaço quantitativo. O determinismo se torna, então, duas vezes impossível: (a) pela ruptura entre dois mundos – aquele da duração vivida, onde reina a liberdade, e aquele da ciência, que é necessário; (b) pela continuidade mantida separadamente em cada um desses mundos, onde não se encontram nem rupturas, nem intervalos, nem começo, nem parada…

O realismo temporalista fora a descoberta mais importante de Bérgson, que colocou como disse a matéria, a vida, o psíquico e o social em diferentes graus do tempo qualitativo, isto é, escalonados segundo os degraus de espessura da duração e segundo seus ritmos diferentes.

Todavia, tivera enclausurado essas gradações no “movimento de desespacialização”, tido por único e contínuo através da heterogeneidade da duração qualitativa.

Nada obstante, Bérgson reconheceu e descreveu uma multiplicidade de tempos: Cada um seria qualitativo e quantitativo em graus diferentes, tempos descontínuos e contínuos que se encontrariam tão bem na experiência imediatamente vivida, como nos mundos, planos ou universos construídos pelas ciências. Notando-se ainda a descontinuidade e a contingência interferindo principalmente no interior de cada um desses tempos, bem como entre eles.

 

Há no interior dos tempos três escalas de intermediação entre os contrários complementares acentuando o pluralismo descontinuista.

 

Gurvitch, nesta leitura, quer estabelecer as três escalas que estão na mesma situação de intermediação entre os contrários complementares.  Seu ponto de partida é, então, a observação de que (a) cada esfera do real, (b) cada gênero de determinismo, (c) cada procedimento operativo para constatá-lo, cada um se encontra situado não somente no interior dos tempos ou de uma temporalidade, isto é, em outro grau de compromisso entre o qualitativo e o quantitativo, o contínuo e o descontínuo, o contingente e o coerente, mas também em outra temporalidade.

Pretende nosso autor acentuar que cada gênero de atividade humana se afirma em um tempo particular, o mesmo sendo válido para os tempos aos quais as diferentes ciências se reportam.

 

A temporalidade científica não pode ser destacada da temporalidade real sobre a qual se funda.

 

Sustenta, então, que a temporalidade científica não pode ser destacada da temporalidade real sobre a qual se funda, assim como o construído não pode ser isolado do vivido, enfatizando que assim é porque esses dois elementos – a temporalidade científica e a real – se encontram ligados por uma dialética de passagem.

 

O pluralismo descontinuísta é compreendido como desdobramento da teoria da relatividade geral de Einstein.

 

Desta forma se compreende o pluralismo descontinuísta como desdobramento da teoria da relatividade geral de Einstein.  Daí falar-se de vários tempos na física que mantém diferentes relações, tanto que Bachelard dirá o seguinte: “Se o tempo do físico pôde aparecer, até nossos dias, único e absoluto, foi porque o físico se situou primeiramente num plano experimental particular. Com a relatividade, surgiu o pluralismo temporal” [vi] .

E Bachelard prossegue: “Para a relatividade, existem vários tempos que, sem dúvida, se correspondem…, mas que não conservam duração absoluta. A duração é relativa. A concepção das durações nas doutrinas da relatividade aceita ainda a continuidade como característica evidente… o mesmo não se passa na física quântica. todas as dificuldades que encontramos na assimilação das doutrinas provêm do fato de explicarmos uma mudança de qualidade… (por uma) mudança de lugar. Veremos que a continuidade é aqui… uma péssima hipótese… É, pois, de presumir que a física quântica implique necessariamente a concepção de durações descontínuas que não terão as propriedades de encadeamento ilustradas… por trajetórias contínuas”. (Ibidem)

 

Os tempos se multiplicam segundo critérios variados

Nesta análise, o relevo é posto nos critérios pelos quais os tempos se multiplicam, cabendo destacar as seguintes proposições:

(1) o fato de que a temporalidade científica não pode ser destacada da temporalidade real sobre a qual se funda, assim como o construído não pode ser isolado do vivido, faz sobressair o equívoco da interpretação levando a concluir que o tempo em que são colocados os objetos das diferentes ciências, por ser na maioria dos casos um tempo mensurável e dependente de planos de referência mais ou menos artificialmente construídos para cada ciência, perderia, por isso mesmo, seu caráter específico, seu elemento particular de contingência, de qualitativo e de descontínuo.

(2) Gurvitch assinala que: (a) O elemento do qualitativo, do descontínuo e do contingente no tempo se fortifica gradualmente na medida em que se passa sucessivamente da astronomia à macrofísica, desta à microfísica [vii]; da mecânica, mesmo quântica, à termodinâmica, desta à química, depois à biologia, enfim, à psicologia, à história e à sociologia, (b) ao passo que se fortifica gradualmente o quantitativo no percurso inverso, atrás do contínuo e do coerente.

⇒ No primeiro caso, o recurso às leis causais torna mais limitado a expressão do determinismo, enquanto no segundo caso torna-se mais propícia a aplicação dessas leis (salvo em microfísica);

⇒ De todas as maneiras, permanece-se sempre na esfera do determinismo desde que se tenha em conta o pluralismo dos determinismos, como correspondente à multiplicidade dos tempos, e, igualmente, se tenha em conta o fato de que lei e causalidade não se entrelaçam.

⇒ Nota-se que não existe sempre correspondência entre o reforço do qualitativo e o da descontinuidade (p.ex.: o tempo na ciência da história é simultaneamente mais continuísta e mais qualitativo que em sociologia), isto acentua a multiplicidade dos tempos.

⇒ Nota-se, ainda, que os tempos se multiplicam segundo (a) as acentuações variadas do presente, do passado e do porvir; (b) de suas projeções e contatos diversos; (c) segundo seus avanços, retardos, caráter cíclico, alternância, virtualidade de crises e de explosões, aparição e desaparição de ritmos. ⇒ Entretanto, estes diferentes critérios podem coincidir ou entrar em conflito, bem como podem ter importância e significação desiguais nas diversas esferas do real: apreendidas, conhecidas, ou conscientemente construídas pelas diferentes ciências.

 

 

O caráter histórico de uma realidade social é múltiplo, pois há graus de percepção de que a ação humana concentrada pode mudar as estruturas e permitir revoltas contra a tradição.

 

Perquirindo o objetivo de chegar à descrição da multiplicidade dos tempos especificamente sociais, haverá que apreciar a diferença entre tempo sociológico e tempo histórico. Haverá que distinguir a realidade estudada, o método aplicado a esse estudo e o objeto que resulta da conjugação de realidade e método.

De início, se estabelece que o caráter histórico de uma realidade social é múltiplo, havendo graus de prometeísmo, isto é, graus de percepção de que a ação humana concentrada pode mudar as estruturas e permitir revoltas contra a tradição. O saber histórico como historiografia se concentra exclusivamente sobre a realidade histórica, acentuando muito o primado das sociedades globais como sujeitos “fazendo história”.

Por sua vez, a sociologia salienta o complexo jogo entre as escalas do social que se pressupõem uma a outra, quer dizer: procura confrontar a realidade histórica aos planos sociais não-históricos ou pouco históricos, como respectivamente os elementos microssociais e os grupais.

As manifestações prometeicas da realidade social são as que menos se prestam à unificação. Registra-se aqui um segundo foco de tensão com os historiadores, estes tendem para uma unificação muito intensa da realidade social, enquanto o sociólogo reconhece a resistência da realidade histórica à unificação, facilmente verificada no conflito de versões, e, ademais, se orienta para acentuar a diferenciação e a diversificação, que considera muito ativada pelos planos sociais em competição.

O caráter muito mais continuísta do método histórico será bem observado na medida em que a história, como ciência, é conduzida a vedar as rupturas, a lançar pontes entre as diversas estruturas, exercendo dessa maneira o pensamento ideológico. Daí a grande tentação que espreita a ciência da história, sua tendência para a “predição do passado”, a qual se verte comumente em projeção dessa predição no futuro.

O historiador busca “a luz unitária” que é do saber histórico e não se encontra na realidade histórica.

Será mediante a crítica do continuísmo que se prepara e alcança a sociologia do saber histórico e, por esta via, se desvela a multiplicidade dos tempos especifica-mente sociais. O historiador busca “a luz unitária” que é do saber histórico e não se encontra na realidade histórica. O saber histórico se beneficia do tempo já decorrido, mas reconstruído e tornado presente, de tal sorte que a explicação pela causalidade histórica singular intensifica a singularidade, estreitando as relações entre causa e efeito, tornando-as mais contínuas e por isso mais certas. Daí a razão da crença exagerada na força do determinismo histórico.

A realidade histórica dá privilégio ao tempo descompassado, ao tempo avançado sobre si mesmo, ao tempo de criação, seriamente limitados, todavia, pelo tempo de longa duração e o tempo em retardamento.

No saber histórico, por sua vez, tais tempos históricos reais são reconstruídos segundo o pensamento ideológico do historiador, quem é tentado a escolher alguns desses tempos em detrimento dos outros.

Os tempos decorridos e restaurados pela história, assim o são segundo os critérios das sociedades, das classes ou dos grupos contemporâneos aos historiadores.  A multiplicidade dos tempos que enfrenta o historiador, assim como sua “unificação exagerada” não é tanto da realidade histórica, mas releva como disse de “reconstruções variadas”. Há segunda multiplicidade e segunda unificação que se reduzem a interpretações múltiplas da continuidade dos tempos.

Pertencendo a diferentes sociedades, classes ou grupos, os historiadores não conseguem ressuscitar os tempos escoados senão à custa da projeção do seu presente no passado que estudam.

Quanto aos tempos sociais propriamente ditos, se encontram e se debatem nas diferentes camadas ou patamares (paliers) em profundidade da realidade social, por um lado, e nas oposições entre os elementos não-estruturais, estruturáveis e estruturados, por outro lado.

 

O tempo social é caracterizado pelo máximo de significações humanas que nele se enxertam e pela sua extrema complexidade levando à variabilidade.

O tempo social é caracterizado pelo máximo de significações humanas que nele se enxertam e pela sua extrema complexidade, levando à variabilidade particularmente intensa da hierarquia de tempos sociais.  Há uma dialética levando ao esclarecimento do conceito de tempo e outra dialética levando ao esclarecimento do conceito de social.

A primeira, que leva ao esclarecimento do conceito de tempo, é a dialética entre sucessão e duração, continuidade e descontinuidade, instante e homogeneidade.  A multiplicidade dos tempos, a escala dos determinismos e as realidades por eles regidas ali estão na mesma situação de intermediários entre os contrários complementares.

A dialética que leva ao esclarecimento do conceito de social é a dialética propriamente tridimensional, a dialética entre o microssocial, o grupal e o global, constituindo a dinâmica do fenômeno social como um todo.

A segunda, que leva ao esclarecimento do conceito de social, é a dialética propriamente tridimensional, a dialética entre o microssocial, o grupal e o global, constituindo a dinâmica do fenômeno social como um todo.

 


 

Os Tempos da Burguesia

 

Podem observar no seguinte a descrição dos tempos sociais da burguesia.

(A) De início, a tendência para a interpenetração e para a equivalência dos conhecimentos científico, técnico e perceptivo do mundo exterior, o que se compreende se observarmos o seguinte: (1) Como se sabe foi o advento da burguesia que fez progressarem ao primeiro lugar as ciências da natureza e as ciências exatas, e o fez tanto diretamente quanto pela intermediação do Estado e seus estabelecimentos de ensino; (2) impôs a quantificação mais forte e mais eficaz das amplitudes e dos tempos, levando ao pé da letra o lema de que “tempo é dinheiro”, estabelecendo desta maneira um laço entre o conhecimento perceptivo do mundo exterior e o conhecimento científico, com tendência para unificá-los; (3) a chegada ao poder da classe burguesa no século XVIII trouxe mudança em permanência no interior das estruturas, de tal sorte que a sociedade industrial passa a experimentar desde então uma união entre conhecimento científico da natureza e conhecimento técnico.

Até então, antes da chegada ao poder da burguesia, a sociedade industrial começando no século XVII buscava desenvolver-se fora das ciências, diretamente nas fábricas e nas práticas de trabalho que as mesmas suscitavam.

A mudança levando à união do científico e do técnico passa por um momento inicial em que o saber burguês situa o mundo exterior nas amplitudes prospectivas (as que se localizam adiante), notando-se uma correspondência entre estas e os interesses imediatos dos empresários, referidos à expansão econômica e à evolução técnica.

A mudança avança em razão de que a “visão que localiza adiante” revela-se impossível sem a intervenção dos meios técnicos que, por sua vez, não podem evoluir com a rapidez suficiente sem a ajuda do conhecimento científico.

Desta forma, tendo base nas amplitudes prospectivas e projetivas em que o saber burguês situa o mundo exterior, a tendência para a união ciência-técnica correspondendo às perspectivas da expansão econômica e da evolução da técnica teve a ver com os seguintes pontos: (a) com a conquista de novos mercados, notadamente os coloniais; (b) com a busca de mão de obra e das riquezas naturais, tais como os minerais, o petróleo, o carvão, etc.; e, finalmente, (c) com a colocação nova dos capitais e (d) com as organizações industriais nacionais e internacionais, incluindo os trustes e cartéis.

(4) Acresce que, nesse conhecimento do mundo exterior próprio da classe burguesa, as amplitudes e os tempos se orientam no mesmo sentido e são medidos com os mesmos padrões quantitativos do “tempo é dinheiro”; (a) as amplitudes se afrouxam e se ajustam sem dificuldade graças à intervenção dos meios de comunicação, (b) combinando elasticidade aos tempos identificados à circulação dos capitais e aos investimentos, ao ciclo da produtividade das empresas, à duração do trabalho e do comércio.

(5) Com a decadência da classe burguesa desde o final do século XIX – a enfrentar, então, uma resistência mais forte da classe proletária, várias crises econômicas mais graves, as guerras de descolonização, o advento dos regimes coletivistas a partir das revoluções sociais –, o saber burguês revela que o mundo exterior se imbricou em amplitudes e tempos mais egocêntricos e agitados, os quais, por sua vez, não se submetem às medidas quantitativas e são refratários aos estudos científicos ou às soluções técnicas.

(6) Desta forma, se chega ao conhecimento que a classe burguesa tem do exterior na segunda metade do século XX, em que: (a) as amplitudes difusas resultam das incertezas ligadas à sorte das estruturas sociais de tipo capitalista; (b) as amplitudes concêntricas e projetivas são relativas à inclusão nos blocos internacionais, em conflito ou em concorrência pacífica.

 

Complementares

 

Frequentemente, as estruturas sociais são estudadas em teoria sociológica desde o ponto de vista do sistema, como sujeitas à mudança somente nas posições relativas de grupos e classes, em conformidade aos padrões do capitalismo.

Isto quer dizer que o problema da possibilidade mesma da estrutura resta à margem, sendo pouco valorizados em sua especificidade microssociológica os níveis de realidade que se diferenciam entre as superestruturas e a infra-estrutura, ou melhor, os níveis intermediários entre as obras de civilização e a base morfológica da sociedade.

É improdutivo discutir problemas de estrutura social sem levar em conta a nítida consciência coletiva da hierarquia específica e referencial de uma unidade coletiva real, como o é a hierarquia das relações com os outros grupos e com a sociedade global ou, designada em modo mais amplo, a hierarquia das manifestações de sociabilidade [viii].

Em um grupo não-estruturado, as relações com os outros grupos e com a sociedade global permanecem fluidas: é somente quando começa a estruturação que essas relações se tornam precisas, quer dizer, que se coloca toda uma série de questões a propósito de como o grupo se integra na sociedade global e da medida da sua tensão com os outros grupos.

 

Há correlações funcionais a serem verificadas entre a estruturação e a tomada de consciência coletiva da hierarquia específica das formas de sociabilidade.

É uma questão de fato e somente de fato, saber quando se está perante verdadeiros grupos reais, ou perante simples coleção de indivíduos. Deste modo, se constata que os desempregados podem passar de “coleção” para grupo real, nas conjunturas de crise econômica; da mesma maneira em que as pessoas que se encontram numa situação econômica idêntica só constituem grupo real quando sentem que o seu nível de vida e prestígio social sofreu uma baixa, ou pelo contrário, quando se dão conta de que o seu nível de vida e prestígio social se encontra em alta.

Em modo idêntico, consumidores e usuários podem tornar-se grupos reais quando seus interesses são alcançados pelo conflito, isto acontece nas seguintes situações: (1) se trata de consumidores que não são simultaneamente produtores: caso dos aposentados, inválidos, crianças, adolescentes, velhos, mulheres, etc.; (2) os consumidores se encontram especialmente conscientes da subida dos preços provocada pelas exigências dos produtores de outro ramo da indústria; (3) se deixam animar por uma doutrina, como o trabalhismo, p.ex., que os leva a acentuar sua posição de consumidores, ou a procurar um equilíbrio entre esta posição e a dos produtores. Nestes três casos, as duas categorias, produtores e consumidores, podem tornar-se grupos reais, podem mesmo estruturar-se e, se isto acontecer, podem ir ao ponto de se organizar.

Desta forma, levando à psicologia coletiva, alcança-se a compreensão de que há correlações funcionais a serem verificadas entre a estruturação e a tomada de consciência coletiva da hierarquia específica das formas de sociabilidade.

A verificação dessas correlações funcionais só será alcançada mediante a aplicação dos procedimentos dialéticos, que permitem descrever as passagens para as reciprocidades de perspectivas, isto é, a formação dos equilíbrios, sem os quais não há estruturação.

As manifestações da sociabilidade, incluindo as relações com outrem, são definidas pela dialética sociológica como as múltiplas maneiras de ser ligado pelo todo no todo [ix], este último termo compreendendo inclusive o complexo de significações observado em todo o campo cultural existente (atualizado em os Nós).

 

História Social

Em maneira mais abrangente, o ponto de vista sociológico assim afirmado, como incluindo a psicologia coletiva, leva a reconhecer que é improdutivo discutir problemas de estratificação e estrutura social sem levar em conta a nítida consciência coletiva da hierarquia “específica e referencial” de uma unidade coletiva real (grupo ou classe).

Como diriam os estudiosos da história social, a estratificação propriamente social implica a percepção das relações com os outros grupos e com a sociedade global, sendo esta tomada de consciência que imprime ordem às manifestações de sociabilidade e diferencia os agrupamentos estruturados [x].

A microssociologia tem ponto de partida na crítica imanente a Durkheim, em modo realista, mediante a análise das duas espécies da sociabilidade: (a) por fusão parcial em os Nós e (b) por oposição parcial em um Nós, desenvolvendo-se daí a dialética como ligada à experiência pluralista e à variabilidade, por exigência da constatação de que, em os Nós, as relações com outrem não podem ser identificadas nem às fases históricas da sociedade global, nem aos agrupamentos particulares  .

E isto é assim porque, em face da diversidade irredutível dos Nós, onde se desenvolvem as manifestações de sociabilidade por relações com outrem, revela-se impraticável toda a possibilidade de síntese, que ultrapassasse a combinação variável dessas relações microscópicas.

Quer dizer, mesmo no estado muito valorado pelos estudiosos da história social, quando as relações com outrem são distribuídas hierarquicamente e servem de ponto de referência a uma estrutura social (relações com o Estado, relações com a classe burguesa, etc.), a síntese não ultrapassa o estado de combinação variável, em que pese o parecer em contrário de Fernad Braudel  .

Sem embargo, o estudo sociológico esquiva-se da grande tentação que espreita a ciência da história, e evita adotar a “predição do passado”, comumente convertida em projeção dessa predição no futuro. Tal o foco de tensão com os historiadores, às vezes esvaziada devido a que o estudo sociológico efetua-se sem adotar uma doutrina filosófica da consciência moral, nem atribuir aos fatos morais uma origem histórica.

Para apreciar a diferença entre tempo sociológico e tempo histórico é preciso distinguir a realidade estudada, o método aplicado a esse estudo e o objeto que resulta da conjugação de realidade e método.

O caráter histórico de uma realidade social é múltiplo, havendo graus de percepção de que a ação humana concentrada pode mudar as estruturas e permitir revoltas contra a tradição (graus de prometeísmo).

Expresso na historiografia, o saber histórico se concentra exclusivamente sobre a realidade histórica, acentuando muito o primado das sociedades globais como sujeitos “fazendo história”. Por sua vez, a sociologia salienta “o complexo jogo” entre as escalas do social que se pressupõem uma a outra, quer dizer: procura confrontar a realidade histórica com “os planos sociais não-históricos ou pouco históricos”, como o são os elementos microssociais e os grupais, respectivamente.

Sobressai que as manifestações prometeicas da realidade social são as que menos se prestam à unificação, registrando-se aqui um segundo foco de tensão com os historiadores, já que estes tendem para uma unificação muito intensa da realidade social, enquanto o sociólogo reconhece a resistência da realidade histórica à unificação, facilmente verificada no conflito de versões.

Por tal razão, o sociólogo busca acentuar a diferenciação e a diversificação, que considera muito ativada pelos planos sociais em competição.

O caráter muito mais continuísta do método histórico pode ser facilmente constatado, na medida em que, como ciência, a história é conduzida a vedar as rupturas, a lançar pontes entre diversas estruturas, em um procedimento cuja consistência não passa de manifestação do pensamento ideológico. Daí a validade da crítica ao continuísmo do método histórico: a adoção do pensamento ideológico não só abre espaço, mas indica a carência nesse método de uma sociologia do saber histórico.

 


[i] A fim de contribuir com a reflexão coletiva atual sobre os movimentos sociais, notadamente, Occupy Wall Street, e tendo em vista a revalorização do ponto de vista da história social com sua compreensão sociológica, ultrapassando a historiografia institucional, estou publicando neste blog alguns fragmentos extraídos do meu livro “A Ideia Tridimensional em Sociologia”, ISBN : 978-84-9009-129-6; http://www.bubok.es/libros/205734/A-Ideia-Tridimensional-em-Sociologia

[ii] Daí admitir-se que o supostamente não-humano mundo dos produtos, compondo a base morfológica da sociedade, seja penetrado de significações humanas, tais como a “força de atração”, base real das mitologias.

[iii] Para tirar um paralelo quebrando um pouco o plano metodológico positivo desta análise especificamente sociológica, cabe lembrar a filosofia literária e marxista do histórico Ernst Bloch que, reconhecendo na matéria das infra-estruturas o dator formarum, examinará o “sonho no objeto”.  [Bloch, 1976]; [Bloch, 1978], op. cit.

[iv] [Gurvitch, 1986], op. cit, págs. 369 e 374.

[v] Veja: [Gurvitch, 1986], op.cit; [Gurvitch, 1968], op.cit.

[vi]  [Bachelard, 1968], op.cit.

[vii] Como é sabida, a desconsideração do elemento particular do qualitativo, do descontínuo e do contingente em microfísica prejudicou e jogou por terra o célebre experimento elaborado por Karl Popper para demonstrar certas supostas insuficiências ligadas às equações de incerteza de Heisenberg. [Popper, 1975], pp.239sq. Veja minha exposição sobre isto em “Leitura da Teoria de Comunicação Social desde o Ponto de Vista da Sociologia do Conhecimento” (As Tecnologias da Informação, as Sociedades e a Perspectivação Sociológica do Conhecimento), e-book, pdf 339 págs, Web de la Organización de Estados Iberoamericanos para la educación, la ciencia y la cultura – OEI, Junho de 2007, Cf. págs. 256 segs.  link: http://www.oei.es/salactsi/lumniertexto.pdf

[viii] Sem embargo, a compreensão do problema sociológico da possibilidade da estrutura foi corretamente aplicada pelos autores de história social, desde os anos sessenta. Veja, por exemplo, [Hobsbawm, 1977].

[ix] Importando sobre qualquer repulsão, a ação originária do todo nos conjuntos práticos se faz sentir notadamente na força de atração.

[x] Sem embargo, a compreensão do problema sociológico da possibilidade da estrutura foi corretamente aplicada pelos autores de história social, desde os anos sessenta. Veja, por exemplo, [Hobsbawm, 1977].

 

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