SSF/RIO

A Sociologia e o Problema Sociológico da Variabilidade

 

 

DDHH, Direitos Sociais e Pluralismo

A Sociologia e o Problema Sociológico da Variabilidade

 Artigo 
Por Jacob (J.) Lumier

 

Leia neste blog o Tópico preliminar a este artigo intitulado

A Sociologia da Variabilidade

 

1-    ►Variabilidade ou Imposição?

Os tipos de sociedade industrial são calcados na observação da divisão do trabalho: a grande oficina e suas engrenagens.

Em vista de esquivar os dogmatismos e livrar-se dos preconceitos, a teoria sociológica se faz precedida do estudo dialético dos determinismos sociais (as engrenagens), a fim de colocar em relevo não só a análise dos níveis de realidade cujas hierarquias múltiplas integram as estruturas sociais[1], mas o concurso da liberdade humana interveniente nesses determinismos, de maneira realista e não simplesmente lógica ou matemática, com relevo para a variabilidade.

A “tradição” intelectual da sociologia que se nutre em Saint-Simon e no “jovem” Marx é notadamente sociologia diferencial (voltada para o estudo dialético das variações nos quadros sociais), e não apenas sociologia sistemática (limitada ao estudo das regularidades tendenciais), estando mais bem aparelhada que esta última para isolar o preconceito filosófico inconsciente que atribui estrutura lógica na base de toda a sociedade e, por esta via, desmontar os dogmatismos da mentalidade doutrinal e axiomática, ainda residual entre sociólogos.

 

►Crítica da mentalidade da filosofia social.

Certamente, o que faz passar despercebida a indispensabilidade da dialética em sociologia é a proliferação de estudos e teorias formalistas de papéis sociais, nas quais predomina a valorização do paradigma de Hobbes (Thomas Hobbes, 1588 —1679) para explicar as desigualdades sociais.

Diz-se equivocadamente que as posições são dotadas de soberania: os homens que as ocupam estabeleceriam a lei para seus súditos e, notadamente, exerceriam o controle de sanções, suposta capacidade de garantir conformidade à lei [2].

Pelo paradigma de Hobbes o problema das desigualdades sociais torna-se derivado e, equivocadamente, se resume em estabelecer um suposto elo perdido entre a sanção do comportamento individual e a desigualdade das posições sociais.

Diz-se, ademais, e ainda equivocadamente, que, partindo da noção de “posições dotadas de soberania”, implicando poder de imposição e sanções, dever-se-ia concluir o seguinte: (a) houvera sempre resistência às posições dotadas de soberania, cuja eficiência e legitimidade seriam precárias; (b) o grupo dos pretensos privilegiados que ocupam tais posições seria, supostamente, o mais forte, e a sociedade – assim imaginada como regida pelo princípio de obediência – se manteria unida pelo exercício da força, isto é, pela coação. Trata-se da conjectura que influentes sociólogos do século vinte, adeptos da mentalidade doutrinária e leitores da filosofia social, classificaram como a “solução hobbesiana para o problema hobbesiano da ordem” [3].

►Daí que o problema das desigualdades sociais torna-se derivado, e se resume em estabelecer o elo perdido entre a sanção do comportamento individual e a desigualdade das posições sociais [4] “elo perdido” este que a filosofia social encontra contido na noção de norma social, a saber: as expectativas de papéis seriam apenas normas sociais concretizadas ou “instituições”.

Diz-se, então, equivocadamente, que seria útil reduzir a estratificação social à existência de normas sociais reforçadas por sanções. Explicação axiomática que demonstraria a “natureza derivativa” do problema das desigualdades [5].

Quer dizer, ao invés de pôr em relevo os determinismos sociais de fato, a derivação das desigualdades teria a suposta vantagem de reconduzir em modo circular aos seus pressupostos doutrinários, como a existência de normas e a necessidade de sanções, considerados como axiomáticos, a dispensarem uma análise maior e, desta forma, encerrando o problema.

Com poucas palavras: porque há normas e porque as sanções são supostamente necessárias para impor conformidade à conduta humana (diferenciação avaliadora), tem que haver desigualdade de classes entre os homens.

Nota-se, enfim, por essa “teoria da coação” (ou de “repressão”), que a variabilidade da estratificação fica absolutamente fora de cogitação na aplicação do paradigma de Hobbes, tornando a discussão dos “universais sociológicos” consequentemente desprovida de alcance operativo, sem aplicação metodológica nenhuma, neste marco axiomático preferido pelos formalistas.

A visão axiomática impositiva segrega uma teoria formalista dos papéis sociais baseada na falsa separação da análise histórica.

►Mas não é tudo. Será em consequencia da teoria de papéis sociais decorrente dessa visão axiomática impositiva que certos autores formalistas serão questionados por promoverem a reificação [6] nas relações sociais e humanas.

Com efeito, diz-se que “todo o segmento de posição estabeleceria uma relação (suposta lógica ou necessária) entre o ocupante da posição e um ou mais grupos de referência”. Então, e conforme tal mentalidade formalista, em sequência seria estabelecido “um conjunto de grupos de referência, cada um dos quais imporia ordens e seria capaz de sancionar o comportamento da pessoa”, seja positiva ou  negativamente.

Daí, por sua vez, a questão artificial da natureza da sociedade se transformaria na questão de saber “como os grupos de referência formulariam e sancionariam as expectativas (das posições, normativas) que seriam capazes de definir” [7].

Seja como for, além da maneira de pensar geométrica e à revelia das formas concretas de sociabilidade (os Nós e as relações com outrem [8]), − em que a análise centrada em posições revela-se, em razão disto, insuficiente, − a teoria de coação substitui, desta forma, o problema dos determinismos sociais pela força de imposição lógica da formulação conceitualista do “segmento de posição”.

Ou seja, nessas teorias formalistas, o indivíduo se personaliza na medida em que é constrangido, e assim levado a enquadrar-se na suposta “relação necessária” extraída de toda a realidade histórica, que lhe é imposta como um pretenso valor coletivo, falso valor porque não surge da experiência dos grupos reais, mas é suposto valer em conjectura, por força da objetivação conceitual do tal grupo vinculado ao segmento de posição.

Será em razão dessa formulação conceitualista que certos autores se verão na circunstância embaraçosa de esclarecer sobre os enunciados de suas teorias de papéis sociais, e se estas favorecem ou não a reificação, haja vista a identificação do valor coletivo à força de objetivação conceitual do grupo vinculado ao segmento de posição [9].

2-  ►Crítica aos Paradigmas de localização.

Tal é o método axiomático das teorias que buscam o “lugar” das desigualdades [10], isto é, aplicam e desenvolvem os paradigmas de localização, no caso, os esquemas de filosofia social, tirados de Thomas Hobbes (1588 —1679).

Antes de se ligarem aos papéis sociais, as expectativas ligam-se ao esforço coletivo.

 

►Por contra, como se sabe é indevida a confiança que se tem no absoluto da localização, porque, antes de constituir uma exigência propriamente epistemológica, a localização buscada encontra-se na base da linguagem como tal, sendo toda a sintaxe de “essência topológica” [11].

Há uma limitação das atribuições realísticas que pretendem empregar as palavras “posição” e “movimento” fora do terreno em que foram definidas, ou onde esses termos são definíveis, isto é, nas equações de incerteza (impossibilidade em mensurar simultaneamente a posição e o movimento), descobertas na Física Quântica e tornadas características de toda a atitude científica contemporânea, nutrida da teoria da relatividade de Albert Einstein (1879 — 1955).

Este ensaio leva em conta a compreensão da revolução de Heisenberg [12], que derruba por terra a objeção de que noções tão fundamentais como “posição e movimento” (velocidade) têm sentido universal.

Em epistemologia, as qualidades geométricas, incluindo a posição e a velocidade, não têm, como se sabe, direito nenhum a serem chamadas qualidades primeiras. Só há qualidades secundárias, uma vez que toda a qualidade é solidária de uma relação (de incerteza) [13].

Posto, desta forma, com base nas relações de incerteza, a compreensão epistemológica da variabilidade como dado elementar da realidade, e tendo em conta, em sociologia, a aplicação da dialética relativista complexa [14], destacando o fato de o saber variar em função dos quadros sociais, há que elaborar sobre o fato social comprovado de que, antes de se ligarem aos papéis sociais, como desejaram equivocadamente os formalistas, as expectativas se ligam ao esforço coletivo, incluindo-se, neste último, os históricos não só de iniciativas, projetos e métodos, mas das tentativas e das próprias realizações de um agrupamento social [15].

Conforme assinalaram Berger e Luckmann, os universos simbólicos são passíveis de cristalização segundo processos de “objetivação, sedimentação e acumulação do conhecimento”. Esses processos de cristalização levam a um mundo de produtos teóricos que, porém, não perde suas raízes no mundo humano, de tal sorte que os universos simbólicos se definem como “produtos sociais que têm uma história” [16].

Além disso, deve ser resgatada a afirmação espontânea do equilíbrio parcial entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros, como foco da vida do Direito que se inclui nas manifestações da sociabilidade, e no consequente pluralismo social efetivo (é irredutível a multiplicidade dos Nós e das relações com outrem), como um dado empírico que derruba por terra os axiomas tirados da filosofia social de Hobbes.

As antinomias guardam um setor intermediado, e não chegam a romper totalmente a reciprocidade de perspectiva.

►O pluralismo social efetivo como “sistema de freios e contrapesos” [17] se descreve a partir da constatação de que a realidade social é integrada (as formas de sociabilidade são maneiras de ser ligado pelo todo, no todo). Isto significa que a afirmação espontânea do equilíbrio parcial entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros é uma característica da realidade social dos Nós, como manifestações concretas da consciência coletiva ao nível da experiência humana [18].

Ou seja, não há polos heterogêneos na realidade que não sejam relativos, toda a polarização dos contrários, dos contraditórios ou até antagônicos revela-se dialética, intermediada ou interpenetrada. Por mais que sejam polarizadas, as antinomias guardam um setor intermediado, e não chegam a romper totalmente a reciprocidade de perspectiva. A exasperação em polarização constitui o limite mais extremado para além do qual a realidade social se abisma.

Como dado empírico implicando procedimentos de verificação dos determinismos sociais, tais como as correlações funcionais e as integrações diretas nos conjuntos práticos [19], dentre outros recursos de método, a afirmação espontânea do equilíbrio parcial entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros (espontânea porque não imposta) diferencia-se no conjunto dos psiquismos individuais e coletivos, lá onde esses psiquismos transferem suas energias subjetivas para a realidade de conjunto, por efetividade do próprio conjunto prático, de tal sorte que a realidade social toda inteira vem a ser penetrada de aspiração aos valores (subjetividade coletiva).

Por efetividade desse determinismo de conjunto, tem-se que a realidade social é integrada, e compreende a soberania social, isto é, a afirmação espontânea do mencionado equilíbrio parcial entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros.

3 – Realismo e Dialética

 

Destas observações decorre que a realidade social exclui o chamado “princípio de obediência à ordem”, que é característico das consciências fechadas sobre si mesmas, introspectivas. O fato de que o mundo de realidade social ultrapassa qualquer imposição de condutas preestabelecidas constitui importante diferencial da sociologia, a que repugna o paradigma da filosofia social de Thomas Hobbes (1588 – 1679), acolhido em especial pelos cientistas políticos, notadamente o falso postulado da natureza heterogênea, levando ao atomismo que fragmenta a realidade social em uma poeira de indivíduos isolados (“o homem é o lobo do homem”), suportes de reflexos condicionados.

Todavia, não se pense que a exclusão do chamado “princípio de obediência à ordem” seja decorrente de um voluntarismo abstrato. Pelo contrário. Inicialmente é preciso ter em conta o contexto histórico em que Émile Durkheim (1858 – 1917) desenvolvera seu conceito de amorfismo social [20], isto é, a decadência não só do Estado, como pacto ou bloco de localidades (instituições parlamentares), mas também do Contrato que o representava como segurança jurídica para o indivíduo no final do século XIX.

Tal é o contexto privilegiado no curso da Segunda Revolução Industrial, iniciada na segunda metade do século XIX (desenvolvimentos dentro da indústria química, elétrica, de petróleo e de aço), com destaque para os sucessos do período datado de 1885 a 1914 (Paz Armada), quando o “neo-imperialismo” levou à contraposição da Tríplice Aliança (Alemanha, Império Austro-Húngaro e Itália), por um lado, e da “Tríplice Entente” (Rússia, França e Inglaterra), por outro lado.

Como se sabe, a significação sociológica de tal decadência do Estado está no que se faz em proveito do direito social autônomo, que impulsionará o desenvolvimento da estrutura de classes no começo do século XX.

Quer dizer, em consequência da decadência do Estado, e, portanto, sem a imposição estatal, as relações coletivas produzirão em soberania social os acordos, as convenções e os contratos coletivos que, exitosos ou não, fizeram valer o mundo do trabalho e da produção industrial. Será neste sentido histórico-sociológico que a realidade social exclui o chamado “princípio de obediência à ordem”.

Mas não é tudo. Tendo em conta as imanentes forças psicossociológicas de pressão e de atração, a integração nos conjuntos da realidade social ultrapassa qualquer força de imposição, qualquer força previamente definida que se imponha logicamente do exterior, ainda que chamada a distribuir prestígio e influência.

Embora tenha níveis objetivados, a realidade social não é um lugar, é mais do que uma simples extensão cartesiana (res extensa) [21], é realidade em ato, em vias de se fazer, e se atualiza na multiplicidade dos quadros sociais − os Nós, os agrupamentos particulares (inclusive o Estado, como bloco de localidades), as classes sociais, as sociedades globais[22].

Neste sentido, o realismo relativista sociológico ajusta-se à dialética complexa de que, tendo em vista o pensamento probabilitário, comentou o filósofo Gastón Bachelard, ao sustentar que temos necessidade de mudar o real de lugar, e que a função realista é cada vez mais móvel: as revoluções frutuosas do pensamento científico são crises que obrigam a uma “reclassificação profunda do realismo” [23].

Rio de Janeiro, Julho de 2011

Fragmento extraído do livro “A Ideia Tridimensional em Sociologia”, por Jacob (J.) Lumier.

 

***

►NOTAS COMPLEMENTARES

[1] Sobre o conceito de estrutura social e as hierarquias múltiplas, veja adiante o tópico A Dialética das Alienações.

[2] [Dahrendorf, 1974], págs. 141 a 173.

[3] Ibid, ibidem.

[4] Ibidem, pág. 193

[5] Ibidem, pág. 196

[6] A reificação da realidade social surge como a questão de saber até que ponto uma ordem institucional ou alguma parte dela é apreendida como uma faticidade não humana, ou inversamente, se o homem em certa organização ainda conserva a noção de que, embora objetivado, o mundo social foi feito pelos homens e, portanto, pode ser refeito por eles. Veja [Berger/ Luckmann, 1978].

[7] [Dahrendorf, 1974], op. cit., págs. 62 / 63.

[8] As formas de sociabilidade são as maneiras de ser ligado pelo todo, no todo.

[9] Ibidem, págs. 106 / 126

[10] Contra os neoliberais do final do século vinte, que sustentavam não existir sociedade, mas somente mercado, a realidade social não é o lugar do contraste entre opulência e pobreza.

[11] [Bachelard, 1968].

[12] As equações de incerteza foram formuladas e defendidas por Werner Karl Heisenberg (1901-1976), em 1927.

[13] [Bachelard, 1968], op. cit.

[14] Vejam os tópicos que se seguem, em especial “Os procedimentos Dialéticos do Hiperempirismo“, notando que, ao tomar por objeto a variabilidade evidenciada pelas relações de incerteza descobertas em Física Quântica, a sociologia tem garantida sua inserção como disciplina científica.

[15] Ao invés de uma teoria dos papéis sociais, há que aprofundar o estudo dialético das atitudes coletivas, como ambiências (Gestalten) e disposições virtuais que levam os quadros sociais a reagirem em comum e assumirem papéis sociais. Veja adiante o tópico “As relações dialéticas e as atitudes coletivas”.

[16] [Berger/ Luckmann, 1978], op. cit. págs.124/132.

[17] Na mesma medida em que viabiliza a funcionalidade das políticas públicas, como ação de integração social, será este equilíbrio dinâmico entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros que o sistema de freios e contrapesos, como conceito de técnica constitucional, visa configurar em sua aplicação ao pluralismo mais concreto dos agrupamentos particulares, inclusive suas disputas de interesses no âmbito da história parlamentar.

[18] Veja [Gurvitch, 1962].

[19] Como se verá adiante, os conjuntos práticos são não-inertes, não apenas lógi­cos, mas em alteração, cujas probabilidades admitem um fator imponderável.

[20] [Durkheim, 1973] págs. 421 segs.

[21] Vejam as análises de Georges Gurvitch sobre as extensões ou amplitudes concretas em [Gurvitch, 1968]. Veja igualmente [Gurvitch, 1969].

[22] Se a realidade social é frequentemente tida como um lugar ou uma localização é porque a apreensão original do mundo social é consideravelmente reificada. Veja [Berger / Luckmann, 1978], op.cit. págs. 124/132.

[23] [Bachelard, 1968], op.cit. pág. 315.


 

Artigo Anexo:

 Experiência e Variabilidade em Sociologia da Vida Moral

 

►Admitindo a dimensão não imediata, mas mediata da experiência moral nota-se como disse a importância dos símbolos acentuando a flutuação da experiência moral em função dos quadros sociais.

O postulado básico da sociologia da vida moral é realizar obra científica na medida em que se afirma uma disciplina com orientação relativista [[i]] e empirista adotando como ponto de referência para o estudo dos fatos morais o conceito estritamente sociológico de atitudes morais, compreendendo as atitudes coletivas ou individuais penetradas pela experiência moral [[ii]].

A utilização deste conceito de atitude é de alta valia, viabilizando, por sua vez, o acesso a toda a multiplicidade dos aspectos e variações da vida moral na medida mesma em que os integra nos quadros sociais a que pertencem.

 Procedimento de integração este que é característico do estudo sociológico, já que, em acordo com Georges Gurvitch  [[iii]], não se pode dar primazia a um gênero de experiência moral como se esta fosse uma experiência integralmente imediata.

Quer dizer, em sociologia não tem base o propósito de definir a experiência moral seja como perpétua revolta, seja como indignação, seja como obrigação etc. porquanto, com atribuições destes gêneros ao conteúdo moral, se pretenda esgotar o campo da experiência moral.

Admitindo a dimensão não imediata, mas mediata dessa experiência, trata-se de aí pôr em relevo a importância dos símbolos, acentuando a variabilidade e mobilidade, a flutuação da experiência moral em função dos quadros sociais tais como sociedades globais, classes sociais, agrupamentos sociais particulares, formas ou manifestações de sociabilidade.

►Aliás, não só o nível simbólico deve ser posto em relevo, mas a variação mesma entre o caráter mais imediato – a apreensão direta do conteúdo moral – e o caráter mais mediato (apreensão realizada pela intermediação dos símbolos sociais) passa a constituir um aspecto da própria experiência moral.

Portanto, favorecido com a possibilidade de chegar à realidade da vida moral através da análise em profundidade do nível dos símbolos sociais, o ponto de vista probabilitário vem a ser afirmado e acolhido.

Delineia-se então, menos que uma definição filosófica, uma delimitação descritiva e ampla da experiência moral como variável funcional.

Segundo Gurvitch, o termo apropriado para a definição descritiva pode ser tirado da linguagem corrente na vida social histórica onde a consciência da liberdade (prometeísmo [[iv]]) e a competitividade combinam, a saber: a noção de luta

No sentido de uma teoria dinâmica a luta humana implica a história, mas não depende da história e constitui uma experiência que tanto é uma experiência vivida quanto o é experiência percebida nos quadros sociais.

Por efeito da reflexão coletiva a luta humana pode ser e efetivamente é simbolizada e conceituada. Aliás, simbolização e conceituação essas que evidentemente admitem graus em relação à sua apreensão intuitiva.

Portanto, esses graus de experiência moral devem ser bem acolhidos na fórmula da definição que lhe corresponde, haja vista a defasagem entre o apreendido e o conhecido que constitui fator de variabilidade nesse ramo especial que é a sociologia da vida moral.

A fórmula proposta por Gurvitch é a seguinte: “a experiência moral vivida, percebida e admitindo graus diversos de simbolização e conceituação é uma luta contra todos os obstáculos que se opõem ao esforço humano, quer coletivo quer individual, luta afirmada como manifestação digna de aprovação desinteressada”.

O objetivo do estudo sociológico é, pois, fazer a variabilidade sobressair na vida moral que, ademais de variar entre o imediato e o mediato, ocorre em numerosos sentidos, haja vista sua não-dependência da história.

 

A definição sociológica dos fatos morais

 

►Assim temos que a vida moral (a) – varia como experiência moral positiva e como negativa, incluindo a experiência dos preconceitos, das faltas, da maldade, da covardia, etc. como experiências negativas; (b) – varia com a variação das relações entre o que vale como Bem, o que se tem por objetivos, por fins, por modelos, regras, valores, ideais e suas representações intelectuais; (c) – varia com as variações das relações entre todos esses elementos e as condutas efetivas; (d) – varia com as variações das relações entre cálculos de valores e juízos de realidade relativos à resistência e à encarnação desses mesmos valores; (e) – varia com as variações das relações entre critérios morais e inclinações naturais (coletivas e individuais) – relações em que ambos os termos podem caminhar no mesmo sentido ou em sentido contrário (não há oposição necessária entre critérios morais e inclinações naturais); (f) – varia com as variações das relações de diferenciação e de conjunção da própria experiência moral com as outras obras de civilização, em particular com a religião, o direito, a arte e o conhecimento; (g) – varia com as variações das relações entre os diferentes gêneros da vida moral, suas acentuações, eficácia e importância.

A obtenção desses resultados compondo a variabilidade da experiência moral só é possível de alcançar mediante a aplicação do conceito sociológico de atitudes morais [[v]].

►Vale dizer: a definição sociológica dos fatos morais oferecida pelos continuadores de Durkheim, notadamente Georges Gurvitch, não só põe em foco como mencionado a experiência, mas também põe em relevo na vida moral como apego e sentimento de pertença aos grupos sociais tratar-se de um conteúdo objeto de aprovação ou desaprovação (passa como disse pelo nível simbólico), cujo caráter desinteressado é seu traço distintivo essencial.  

Ao assinalar que se trata de uma teoria dinâmica que implica a história, mas não depende da história a questão da percepção adquire sem dúvida alta relevância. Daí o aproveitamento original que a sociologia tira da Gestaltheorie.

Com efeito, tomando em consideração que o processo perceptivo mais simples implica elementos estruturais fundamentais (Gestalten) que antecipam a capacidade do homem para isolar relações ou considerá-las em sentido abstrato, e tirando dessa proposição sumular da Gestalttheorie a noção de ambiências em configurações, Gurvitch definirá os fatos morais como atitudes coletivas e individuais (isto é, ambiências em configurações ou Gestalten coletivas), concebidas como aspectos da realidade social por serem inspiradas pela experiência de uma luta contra todos os obstáculos que se opõem ao esforço humano, luta reconhecida como manifestação digna de aprovação desinteressada.  (desenvolvi este tópico em “Cultura e Consciência Coletiva-2“, e-book pdf. 169 págs, Web da OEI 2009, ver págs. 77 segs. http://www.oei.es/cienciayuniversidad/spip.php?article388  )

São as atitudes morais que integram os resultados da pesquisa sobre a variabilidade nos quadros sociais a que pertencem, e desta maneira permitem chegar à mencionada definição operativa dos fatos morais, como objetos do estudo sociológico relativista e empirista.

Nunca é demais insistir que, embora as atitudes e os fatos morais impliquem a tomada de consciência, o estudo sociológico efetua-se sem adotar uma doutrina filosófica da consciência moral, nem atribuir aos fatos morais uma origem histórica [[vi]

Portanto, há uma análise prévia das atitudes como fatos sociais, isto é, como vias às quais penetrará a experiência moral. Esta as torna, então, ambiências sociais inspiradas justamente pela experiência de uma luta contra todos os obstáculos que se opõem ao esforço humano, luta digna de aprovação desinteressada, conforme a definição mencionada. 

Créditos de Durkheim

►Nessa definição dos fatos morais se toma emprestado a Durkheim o seguinte: (a) – o papel indispensável da afetividade coletiva para a funcionalidade dos valores ideais (efetivando a atração do desejável) e (b) – a intuição de que a consciência é aberta às influências do ambiente – Durkheim concebe a consciência coletiva como intrinsecamente relacionada ao elemento flutuante, não estruturado, que designava “solidariedade de fato” (aí compreendendo as manifestações da sociabilidade).

Para seus continuadores, a insuficiência das orientações de Durkheim quanto ao problema da consciência coletiva (por ele equivocadamente identificada ao Bem supremo, como disse) que ele próprio introduziu na sociologia do Século XX está em sua falta de relativismo científico, ao ignorar que a importância dos níveis em profundidade da realidade social é variável segundo cada tipo de sociedade global, cada tipo de agrupamento social e segundo os diferentes Nós.

Compreendendo os conjuntos do psiquismo (vida mental consciente, subconsciente, infraconsciente e inconsciente) e da vida humana e social com sua realidade social e sua realidade histórica, a consciência coletiva deve ser estudada nos seguintes patamares assinalados por Gurvitch:

 (a) – não só nas suas manifestações na base morfológica da sociedade que inclui as infra-estruturas, recursos, instrumentos (se estudam as amplitudes concretas, em que se imbricam os objetos de conhecimento do mundo exterior, já mencionadas);

(b) – nas condutas organizadas e regulares, nos modelos (cristalizados ou mais ligados ao espontaneísmo), signos, atitudes, funções sociais, símbolos, idéias, valores e ideais coletivos, obras de civilização (arte, religião, conhecimento, direito, moral, educação);

(c) – principalmente nas estruturas e nos fenômenos não-estruturais como as formas de sociabilidade (Massa, Comunidade, Comunhão);

(d) – igualmente em si própria, em suas manifestações concretasem os Nós, já que a consciência coletiva não se realiza inteiramente em qualquer desses elementos e  pode extravasá-los em expressões imprevisíveis, inesperadas e até surpreendentes. 

A realidade dos níveis culturais na vida coletiva – níveis simbólicos e significativos, as idéias, os valores e os ideais – põem em relevo que a consciência coletiva os apreende, portanto uma consciência situada no ser, intuitiva e capaz de se multiplicar em um mesmo quadro social.

Melhor ainda, em sua autonomia, o mundo cultural com seus valores que aspiram à validade só pode ser apreendido por via de consciência coletiva.  Por sua vez, a apreensão por via de consciência coletiva é possível graças ao fato de que essa consciência é capaz de se abrir, ultrapassando as suas crenças e assimilando as novas influências do ambiente social, e como foi dito é capaz de se multiplicar no mesmo quadro social.

Enfim, da mesma maneira em que não há comunicação sem o psiquismo coletivo, decorre das pesquisas empíricas que os símbolos sociais para servirem de base à comunicação universal devem ter para todas as consciências individuais o mesmo significado (cuja autonomia em relação aos significantes é constatada no fato de que as coisas mudam de significado) pressupondo em modo realista uma união, uma fusão parcial das consciências anterior a qualquer comunicação simbólica. Tal a efetividade irredutível da consciência coletiva.

 

►Leia mais sobre o estudo da sociologia da vida moral nos enlaces seguintes:

(1)Neste blog: O Sociólogo diante do Utilitarismo. https://leiturasociologica.wordpress.com/o-sociologo-diante-do-utilitarismo/

(2)Na web Scribd: “O Sociólogo e o Utilitarismo: Notas sobre Durkheim e o Altermundialismo”.

http://www.scribd.com/doc/38642214/O-Sociologo-e-o-Utilitarismo-Notas-sobre-Durkheim-e-o-altermundialismo


NOTAS

[i] Note-se que o relativismo sociológico não incorre na dispersão dos critérios, mas elabora uma orientação probabilitária afirmando a variabilidade funcional, cuja complexidade, porém, decorre das funções dialéticas. Ver Gurvitch, Georges (1894-1965): “Dialectique et Sociologie”, Flammarion, Paris 1962, 312 pp., Col. Science. Op.Cit. 

[ii] As unidades coletivas reais jamais se encontram em estado inerte e o “conceito” operativo mais elementar que dá conta dessa qualidade não-inerte é o de atitudes coletivas.

[iii] Gurvitch, Georges (1894-1965): “A Vocação Actual da Sociologia – vol. I: na senda da sociologia diferencial”, tradução da 4ª edição francesa de 1968 por Orlando Daniel, Lisboa, Cosmos, 1979, 587 pp. (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1950).  “A Vocação Actual da Sociologia –vol.II: antecedentes e perspectivas”, tradução da 3ª edição francesa de 1968 por Orlando Daniel, Lisboa, Cosmos, 1986, 567 pp. (1ª edição em francês: Paris, PUF, 1957). “Tratado de Sociologia – vol.1“, revisão: Alberto Ferreira, Porto, Iniciativas Editoriais, 1964, 2ª edição corrigida (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1957). ”Tratado de Sociologia – Vol.2”, Revisão: Alberto Ferreira, Iniciativas Editoriais, Porto 1968, (1ª edição Em Francês: PUF, Paris, 1960). Op.Cit.

[iv] Percepção coletiva de que a ação concentrada pode mudar as estruturas, o prometeísmo é qualidade em todos os tipos de sociedades históricas e sua aplicação em sociologia é indispensável para descrever a realidade histórica como setor privilegiado da realidade social, e desta forma evitar qualquer confusão com a filosofia da história. Ver Gurvitch, Georges (1894-1965): “Dialectique et Sociologie”, Flammarion, Paris 1962, 312 pp., Col. Science. Op.Cit.  

[v] Vimos anteriormente que a noção de Gestalt se inscreve na concepção mesma e na descrição das atitudes coletivas, em especial nas atitudes morais sendo possível a partir daí definir os fatos morais descritivamente e sem tomar posição filosófica precisa nem identificar-se a uma doutrina particular – mas, bem entendido, sem prescindir da colaboração da reflexão e da análise filosófica ou não-representacional para definir a especificidade do fato moral. 

[vi] Sobre as relações entre o saber histórico e a sociologia veja neste blog o artigo “Os tempos sociais, a sociologia e a história”. https://leiturasociologica.wordpress.com/os-tempos-sociais-a-sociologia-e-a-historia/ .

 

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