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Vontade de Valor, Vontade de Verdade, Idéias de Valor em Sociologia.

In dialectics, history, sociologia, twentieth century on April 30, 2013 at 9:55 am

Vontade de Valor, Vontade de Verdade, Idéias de Valor em Sociologia..

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Vontade de Valor, Vontade de Verdade, Idéias de Valor: o estudo sociológico dos quadros intelectuais da sociologia de Max Weber by Jacob (J.) Lumier is licensed under a Creative Commons Reconocimiento-No comercial-Sin obras derivadas 3.0 Estados Unidos License.
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O estudo sociológico dos quadros intelectuais da sociologia de Max Weber [1]

Epígrafe

A separação radical do fato e dos valores em Max Weber revela o paradoxo em se ignorar nos seres do passado a vontade de valor ou de verdade, o que, em conseqüência, limita fortemente o alcance da sociologia interpretativa para a compreensão da conduta individual unicamente na referência das idéias de valor. O estudo sociológico dos quadros intelectuais de Max Weber deve explicar como aconteceu que esse pensador não tenha repelido tal paradoxo.

***

O estudo dos quadros sociológicos da sociologia da compreensão interpretativa se encontra assinalada nos estudiosos da obra e pensamento de Max Weber que buscam selecionar as influências aceites por este pensador oriundas do seu ambiente social e intelectual mais próximo, assim como buscam descobrir a maneira pela qual tais influências se traduzem em conceitos e modelos de análise.

A sugestão de que o problema da sociologia de Max Weber se equaciona em termos sociológicos em torno ao culturalismo espiritualista de Heinrich Rickert, tomado como o conjunto das orientações intelectuais e metodológicas que servem de referência para a sociologia da compreensão interpretativa, parece atender em maneira bastante satisfatória a tal linha de pesquisa dos estudiosos [2]. Isto porque aporta um esclarecimento sobre as fontes na sociologia do século XIX para a procedência do formalismo, do culturalismo e do psicologismo que, freqüentemente, os estudiosos observam combinando-se em maneiras variadas na sociologia de Max Weber.

Essas orientações para o formalismo, o culturalismo e o psicologismo nada mais significam do que ampliações da crença no caráter extra-social do fator predominante como capaz de explicar a generalidade do social [3].

A dificuldade maior de Max Weber surge da tensão entre, por um lado, a convicção de que o método das ciências sociais é necessariamente individualizante e, por outro lado, a própria possibilidade da sociologia, a qual implica em generalização.

Tal o quadro do seu pensamento, que Gurvitch põe em relevo como se efetivando na base da construção dos tipos sociológicos ideais.

Por outras palavras: a crença no caráter extra-social do fator predominante como capaz de explicar a generalidade do social funciona então para equilibrar essa tensão no pensamento de Max Weber, sem que, todavia, isso o proteja contra os reveses em sua sociologia, como a dispersão.

A crença no caráter extra-social do fator predominante como capaz de explicar a generalidade do social funciona para equilibrar a tensão no pensamento de Max Weber sem que,todavia, isso o proteja contra os reveses em sua sociologia, como a dispersão.

Como se sabe, o contexto mais amplo em que se produziu a sociologia da compreensão interpretativa é marcado não só pela atmosfera humanista dos salões intelectuais, mas pela influência dos neokantianos, que predominaram nas universidades alemães à época do liberalismo, entre 1870 e 1914, acentuando a erudição no ensino e a importância dos conceitos reguladores e das regras como princípios na teoria do conhecimento.

Além disso, nota-se também o choque de duas estruturas de trabalho intelectual contemplando, por um lado, a interpretação conservadora de idéias pelos acadêmicos e, por outro lado, a produção intelectual de socialistas não-acadêmicos (Kautsky, Bernstein, Mehering), dualidade esta que ainda segundo C. Wright Mills criava uma tensão intelectual singular e desafiadora [4].

Observa-se a confusão em Max Weber da filosofia da história e da sociologia. A racionalização não só é um princípio, mas é tido como o elemento mais geral na filosofia da história, sendo medida pelo desencantamento do mundo, em relação a que Wright Mills situa a contribuição de Max Weber à sociologia o conhecimento ao mesmo tempo em que registra tratar-se da concepção errática de um progresso unilinear na direção da perfeição moral.

Mas não é tudo. Em relação ao psicologismo, nota-se que a noção de cultura européia em Max Weber afirma igualmente o progresso ideal, porém admitindo ambigüidades e as racionalizações progressivas são objetos de análises psicológicas quando ali se trata de explicar os sistemas religiosos.

Sublinha-se igualmente o nominalismo cuidadoso do método de Max Weber e a influência da imagem (romântica) do indivíduo monumentalizado (Carlyle) para a concepção weberiana do líder carismático.

Nesse individualismo nominalista, se a unidade final das análises weberianas é posta pelas motivações compreensíveis do indivíduo isolado não será de espantar que essa análise estanque ou fique suspensa diante do conceito de personalidade.

Com efeito, a personalidade ali não passa de um centro de criatividade profundamente irracional, um processus não analisado cuja concretização em uma noção (a inspiração) derivada do romantismo Max Weber se empenha em rejeitar.

Mas não é tudo. Esse individualismo e nominalismo podem ser notados diretamente na seguinte passagem selecionada de “Ensaios sobre a Teoria da Ciência”, de Max Weber (Ver a edição francesa: Paris, Plon): “A sociologia interpretativa considera o indivíduo (Einzelindividuum) e seu ato como a unidade básica, como seu átomo (…). O indivíduo é também o limite superior e o único portador de conduta significativa (…). Conceitos como Estado, associação, feudalismo e outros semelhantes designam certas categorias da interação humana. Daí ser tarefa da sociologia reduzir esses conceitos à ação compreensível, isto é, sem exceção, aos atos dos indivíduos participantes[5].

Para Wright Mills, o problema da compreensão foi formulado por Wilhelm Dilthey e Max Weber o incorporou em suas análises por ele mesmo denominadas como sociologia interpretativa ou compreensiva. O problema dos tipos sociológicos atenderia, pois, a uma abordagem nominalista e estabelece uma escala de racionalidade e irracionalidade em que a psicologia da motivação cede lugar a um recurso tipológico.

Sustenta-se a ocorrência de uma dualidade entre as reflexões metodológicas e as análises de Max Weber. Por um lado, houvera o propósito metodológico de limitar a compreensão e interpretação do significado às intenções subjetivas do agente social, mas, em sua obra real, por outro lado, Max Weber teria admitido que os resultados das interações não são em modo algum sempre idênticos ao que o agente pretendia fazer.

Apesar de todas essas observações direcionadas para uma sociologia do conhecimento sociológico, Wright Mills por sua vez não percebe, porém, a importância da utilização de fatores isolados na sociologia interpretativa weberiana.

Ou seja, a utilização de fatores isolados na sociologia de Max Weber é sim constatada por Wright Mills. Todavia, por falta de uma crítica da sociologia do século XIX, esse autor ali não percebe o influxo da crença no caráter extra-social do fator predominante como capaz de explicar a generalidade do social, nem o alcance desta crença especifica aos sociólogos culturalistas para a análise sociológica dos quadros intelectuais da sociologia de Max Weber.

Em maneira semelhante a Wright Mills, outros autores estudiosos também se restringem a assinalar uma correlação entre um contexto de choque de duas estruturas de trabalho intelectual por um lado, e por outro lado a dualidade entre metodologia e análise na obra de Max Weber. Lamentavelmente, não desenvolvem orientação proveitosa em sociologia do conhecimento sociológico aplicável a este pensador.

Assim Raymond Aron tece suas observações críticas no âmbito desse duplo dualismo de influências intelectuais e de metodologia/análise e, embora admita a influência de Heinrich Rickert, também se apraz em contemplar o irracional em Max Weber.

Mais precisamente: tendo descoberto uma orientação de caráter existencial ou até existencialista na filosofia implícita de Max Weber, Raymond Aron limitou sua contribuição a uma forte argumentação contra a redução do pensamento weberiano ao nihilismo – tese sustentada pelo filósofo da cultura política Leo Strauss.

Nesse marco de crítica filosófica, e em certo modo inesperado para um sociólogo, nos sugere Raymond Aron que o problema da compreensão tal como desenvolvido em Max Weber deve ser referido preferencialmente não a Dilthey, mas ao pensamento metapsicológico do psiquiatra e filósofo kierkegaardiano Karl Jaspers.

Quer dizer, deve-se dar preferência ao psicologismo ou à limitação de Max Weber ao psicologismo, fazendo prevalecer o âmbito não romântico do problema daquele centro de criatividade profundamente irracional, que como vimos Wright Mills acentuou a respeito da orientação de Max Weber para o conceito de personalidade.

Desse modo, em um dos seus primeiros ensaios marcantes intitulado “Introduction à la Philosophie de l’Histoire” (Paris, Gallimard) Raymond Aron sublinha a separação radical do fato e dos valores em Max Weber, desdobrando alguns comentários críticos a respeito do paradoxo em se ignorar nos seres do passado a vontade de valor ou de verdade, paradoxo este limitando em conseqüência o alcance da orientação de Max Weber para a compreensão da conduta individual unicamente na referência das idéias de valor [6] .

Sustenta esse estudioso que se essa concepção excluindo a vontade de valor ou de verdade fosse admitida, não se teria o critério para diferenciar entre uma obra de filosofia como a “Crítica da Razão Pura”, de E. Kant, e o que Raymond Aron chama as imaginações delirantes de um paranóico, já que ambas seriam colocadas no mesmo plano.

Seja como for, esse estudioso não chega a observar em tal exorbitância do método nominalista o biais pelo qual se infiltra no pensamento de Max Weber a crença específica aos sociólogos culturalistas que acometia a sociologia do século XIX e que deve ser posta de lado pelos sociólogos contemporâneos.

Como vimos, por essa crença específica no caráter extra-social do fator predominante como capaz de explicar a generalidade do social, se reduz a realidade social aos fatores predominantes.

Assim, em seu monumental ensaio posterior sobre “Les Étapes de La Pensée Sociologique[7] Raymond Aron se limitará a confirmar que a orientação de Max Weber deve ser referida a uma filosofia existencial, nada acrescentando de interesse para o estudo propriamente sociológico dos quadros intelectuais-sociológicos da sociologia da compreensão interpretativa desenvolvida por Max Weber.

Desta sorte, embora acentue a vinculação da sociologia interpretativa aos limites do século XIX, prevalece a conclusão de Gurvitch, de que a crença no caráter extra-social do fator predominante como capaz de explicar a generalidade do social funciona para equilibrar a tensão no pensamento de Max Weber, sem que, todavia, isso o proteja contra os reveses em sua sociologia, tais que a dispersão.

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Creative Commons


[1]Esta postagem é o aperfeiçoamento de um trecho do meu e-book “Cultura e consciência coletiva: Leituras Saint-Simonianas de Teoria Sociológica”, divulgado na Web da OEI em 31 de Janeirode 2008http://www.oei.es/noticias/spip.php?article1872

[2]Cf Gurvitch, Georges: ““A Vocação Actual da Sociologia”, 2 volumes, Lisboa, Cosmos, 1979 e 1986.

[3]Ib, Ibidem.

[4] Hans Gerth e Wrigth Mills (organizadores): “Max Weber – Ensaios de Sociologia”, 2ªedição, Rio de Janeiro, Zahar, 1971, 530pp.(1ªedição em Inglês : Oxford University Press, 1946).

[5]Ib, Ibidem.

[6]Na medida em que as idéias de valor referem igualmente a sociologia da religião de Max Weber, caberia notar o contraste com as análises dialéticas da ambiência histórica tradicional e religiosa desenvolvidas por Ernst Bloch que, enlaçando a vontade de valor e de verdade ao elemento essencial originário em si mesmo, reintegra nos seres do passado a impaciente, rebelde e severa vontade de paraíso Cf. Bloch, Ernst: Thomas Münzer, Teólogo de la Revolución(“Thomas Münzer als Theologe der Revolution”, München 1921) Editorial Ciencia Nueva, Madrid, 1968, págs.67, 68.

[7]ARON, Raymond: “Les Étapes de la Pensée Sociologique :Montesquieu, Comte, Marx, Tocqueville, Durkheim, Pareto, Weber”, Paris, Gallimard, 1967, 659pp.

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