SSF/RIO

O PROBLEMA DA IDENTIFICAÇÃO HETEROPÁTICA NO ESTUDO DA CONSCIÊNCIA COLETIVA

In dialectics, history, sociologia on January 17, 2012 at 2:23 pm

 

DDHH, Direitos Sociais e Pluralismo

Notas de Sociologia

Por
Jacob (J.) Lumier

  • O argumento de Durkheim da coincidência total entre consciência coletiva e consciência individual, pelo predomínio exclusivo da solidariedade mecânica, vale unicamente como um argumento que tem em vista a identificação heteropática
  •         O fenômeno da identificação nada tem a ver com a identidade dos conteúdos, nem com a identidade das próprias consciências, nem, finalmente com a ligação das consciências por uma participação recíproca.

***

 Como se aprende nos trabalhos de Georges Gurvitch  , o argumento durkheimiano pela identidade das consciências individuais e sua identificação, para fundamentar a existência da consciência coletiva como um termo médio, deve ser situado em relação ao fenômeno da identidade como identificação heteropática, e deve ser examinado a partir das seguintes possibilidades sociológicas:
                (1º) – tendo as consciências individuais conteúdos idênticos, elas próprias em razão desse fato não são, de modo nenhum, subjetivamente idênticas, isto é, não integram a mesma mentalidade. Trata-se, nesse argumento, uma identidade de caráter mais lógico ou ontológico do que psicológico, e deve ser pesquisada a partir dos seguintes conhecimentos e razões:
(a) – considerando que as consciências mais diferenciadas e mais individualizadas podem ter as mesmas representações e percepções; e,
(b) – que podem servir de pontos de referência aos mesmos juízos; se constata então que (…):
(c) – a identidade das consciências individuais é proveniente, neste caso, não do ato mental, não da intuição ou do juízo afirmado, mas, sim, da obra realizada, ou seja: da objetividade;
(d) – aprofundando neste marco da obra realizada, tal identidade das consciências individuais revela-se como provindo da identidade dos mesmos dados do ser ou da verdade, que se impõe aqui às consciências.
                (2º) – Por sua vez, esta segunda possibilidade sociológica trata não de uma situação de fato, como a possibilidade anterior, portanto não estaria a exigir uma constatação decorrente de conhecimentos confrontados. Antes disso, versa sobre uma afirmação interpretativa e sobre o respectivo juízo de valor afirmado.
    Com efeito, Gurvitch observa que a afirmação da mais perfeita identidade das consciências deixa-as em estado isolado, e não conduz por si própria a qualquer ligação entre elas. Isto porque, ao nível dos fatos, se, mais do que similares, as consciências individuais podem mostrar-se como idênticas entre si sob um determinado aspecto (devido à mesma educação, por exemplo), elas podem também mostrar-se muito diferentes sob outro aspecto.
        ►Sem embargo, a afirmação da identidade perfeita em Durkheim tem uma vertente especulativa, que Gurvitch não deixa passar em silêncio. Vale dizer, a identidade perfeita pressupõe a oposição entre consciência racional e consciência sensível, e tem precedente na doutrina da consciência transcendental ou consciência pura, de Kant, tomada como oposta à consciência empírica.
        Por outras palavras, na argumentação de Durkheim em favor da transcendência da consciência coletiva nota-se, então, a doutrina da filosofia que estabeleceu uma consciência pura – a qual, Kant e Rousseau antes dele, afirmaram ser idêntica em todos  –, ao passo que as consciências empíricas são particulares. Em consequência, mesmo sob a forma de tal “oposição consciência pura / consciência empírica”, a identidade das consciências não conduz a qualquer ligação direta entre as consciências, que permanecem isoladas entre si.
        Segundo Gurvitch, invalidando a utilização do argumento da identidade das consciências entre si, para fundamentar a existência da consciência coletiva como termo médio comum, a verdade desta conclusão pode ser confirmada pelo próprio posicionamento de Kant, diante de sua teoria do conhecimento – em que a unidade da percepção transcendental, por um lado, e, por outro lado, a razão prática, ambos convergem para um elemento de identidade inerente às consciências individuais –, já que o encontro do elemento de identidade não levou Kant a ultrapassar o individualismo. Aliás, esse posicionamento de Kant somente reafirma o conhecimento de que exemplares idênticos do mesmo gênero não se encontram em modo algum ligados entre si, nem formam uma totalidade concreta.  

                (3º) – Gurvitch conclui sua crítica apreciando a possibilidade de relacionar o fenômeno da identificação estudada na psicologia infantil e patológica, por um lado, com, por outro lado, o mencionado argumento em favor da identidade das consciências individuais e sua identificação, sugerido por Durkheim para fundamentar a existência da consciência coletiva, como um termo médio.
        Esclarece inicialmente (a) – que, no fenômeno da identificação, em vez de duas ou mais consciências, só uma resta; (b) – que, na identificação heteropática, se afirma a consciência com a qual nos identificamos; (c) – que, na identificação idiopática se afirma, pelo contrário, não aquela consciência outra, mas, antes, a consciência do sujeito que identifica Outrem ou Nós consigo próprio .
        Note-se que o fenômeno da identificação nada tem a ver com a identidade dos conteúdos, nem com a identidade das próprias consciências, nem, finalmente com a ligação das consciências por uma participação recíproca. Gurvitch só admite que o argumento de Durkheim da coincidência total entre consciência coletiva e consciência individual, pelo predomínio exclusivo da solidariedade mecânica, vale unicamente como um argumento que tem em vista a identificação heteropática – excluindo então a identificação idiopática, que seria o aniquilamento da consciência coletiva na consciência individual.
        Em resumo, a identificação heteropática com a consciência coletiva sendo admitida, repelida fica, todavia, que tal identificação possa servir de base para explicar a realidade específica da consciência coletiva. Isto porque tal identificação só é possível na medida em que a consciência coletiva já exista!

***

►Apesar da compreensão de que o fenômeno da identificação nada tem a ver nem com a identidade dos conteúdos nem com a identidade das próprias consciências, nem, finalmente com a ligação das consciências por uma participação recíproca  , o sociólogo admite que em alguns agrupamentos e sociedades se manifestem casos intermediários, isto é, casos onde a separação entre o aspecto mental dos Nós e o fenômeno da identificação é menos nitidamente acentuada que noutros casos.  Assim, nos são dados os exemplos seguintes:
Os Nós constituídos por membros de seitas em êxtase místico, por iniciados nos mistérios antigos, por fiéis de um chefe político, por participantes em multidões exaltadas, podem um pouco aproximar-se dos fenômenos de identificação patológica, respectivamente, do homem com o seu Deus, com o seu Chefe, com o seu Herói, com o seu Pai, etc.
  Nota-se que o psiquismo dos Nós onde predominam estados emotivos está mais sujeito ao deslize para esses fenômenos de identificação do que a mentalidade dos Nós onde predominam os estados intelectuais ou voluntários.  Bem entendido, os Nós que servem de focos aos atos mentais (intuições, juízos) estão mais preservados do que os Nós que servem exclusivamente de quadros aos estados mentais (opiniões).

  • A mediação comunicativa

Em acordo com a teoria sociológica  , compreende-se que todos os Nós se encontram fundados em intuições coletivas no estado virtual (não traduzidas em juízos): “sem a presença das intuições coletivas virtuais, a existência dos Nós seria impossível, como seria impossível a ação dos símbolos que facilitam o funcionamento dos Nós e levam os seus membros à participação”.
Com efeito, a análise sociológica mostra que “a própria imanência dos Eu ao Nós e dos Nós ao Eu não pode efetuar-se se não for a partir de uma base intuitiva, mais não seja que virtual; é nisso precisamente que consiste em última análise a fusão parcial ou interpenetração”.
Ao mesmo tempo, quaisquer que sejam, todos os Nós funcionam como precedendo qualquer mediação comunicativa por meio de sinais e símbolos, que poderia em seguida contribuir para sua conservação, sua consolidação e o seu reforço – o exemplo da língua impondo-se aqui.
Ninguém contestará a importância do papel desempenhado pela língua na aproximação, na ligação, na interpenetração, na participação dos sujeitos individuais e coletivos nos conjuntos práticos. Mas, para que os símbolos de uma língua provoquem os mesmos efeitos em todos que a falam, para que a própria língua se constitua é preciso que ela possa apoiar-se em uma união prévia, em um Nós preexistente.  

***
Leia mais:
►Lumier, Jacob (J.): “Psicologia e Sociologia: O Sociólogo como Profissional das Ciências Humanas”, 16 de febrero de 2008, PDF 170 págs. link http://www.oei.es/noticias/spip.php?article2005
►Lumier, Jacob (J.): Dialética e Consciência Coletiva: Artigos de Teoria Sociológica, 2ª edição, Fevereiro de 2011, versão e-book PDF, 235 págs.http://www.scribd.com/doc/52059337/Dialetica-e-Consciencia-Coletiva

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