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As Aplicações da Sociologia do Conhecimento.

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As Aplicações da Sociologia do Conhecimento.

Vista Sucinta da Sociologia do Conhecimento Técnico, do Conhecimento Político, do Conhecimento Científico e do Conhecimento Filosófico. (decompondo os sistemas cognitivos)

Por

Jacob (J.) Lumier

Websitio Produção Leituras do Século XX – PLSV:

Literatura Digital

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Rio de Janeiro, Setembro 2008

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Como se sabe, além de realçar a variabilidade (o conteúdo do saber varia em função dos quadros sociais), o alcance e a aplicação da sociologia do conhecimento não é outro senão fazer sobressair o que há de específico a este ou àquele Nós,a este ou àquele grupo, no aspecto do saber que ele possui e usa para se orientar no mundo, saber que lhe é próprio como grupo estruturado ou que lhe corresponde como forma de sociabilidade.

Sem dúvida, esse saber só é descoberto pela colocação em perspectiva sociológica do conhecimento tornando efetivo o reconhecimento da unidade coletiva real pelos próprios participantes, sejam eles ou não disso conscientes.

Vale dizer, participa-se em um grupo estruturado na medida em que se partilha o saber específico a este grupo, mesmo à distância ou aparentando nada ter a ver com o mesmo.

O reconhecimento pelo saber específico de um grupo estruturado tem alcance probabilitário, permite avaliar o campo das combinações virtuais ou reais com outros grupos ou classes que o mesmo está em medida de participar, para trocar, completar, ou enriquecer seus conhecimentos e experiências, caso bem entendido tal grupo atualize uma consciência aberta às influências do ambiente que seja acima da média.

Permite também verificar, entre outros aspectos, a influência do mesmo grupo, se está em ascensão ou não, aspectos esses muito relevantes quando se trata de classes sociais, mais relevante ainda no estudo dos tipos de sociedades globais e suas estruturas, já que esse estudo implica em descrever de que maneira grupos e classes sociais deixam combinar seus conhecimentos específicos integrando-os nos sistemas cognitivos das sociedades.

Note-se que não se trata aqui apenas do conhecimento científico, mas de todo o juízo que pretenda afirmar a verdade sobre alguma coisa. Ou seja, por conhecimento deve entender-se “os atos mentais em que se combinam a experiência imediata e mediata em diferentes graus com o juízo[1].

Se a verdade e os juízos fossem sempre universais não poderia estabelecer-se uma distinção nem entre as ciências particulares, nem entre os gêneros do conhecimento (não se poderia falar, neste último caso, de “classes do conhecimento”), notando-se que até mesmo os filósofos mais dogmáticos distinguem dois ou três gêneros do conhecimento: o conhecimento filosófico, o conhecimento científico e o conhecimento técnico, os quais, como classes do conhecimento, se impõem cada um como um quadro de referência, “eliminando assim o dogma da validade universal dos juízos”.

Entretanto, é repelida aqui qualquer confusão com o “culturalismo abstrato” que prejudicou o alcance probabilitário da sociologia de Max Weber. Orientação errática que despreza as censuras sociais como elemento de regulamentação presente em realidade nas obras de civilização e nas estruturas, o “culturalismo abstrato” atribui ao conhecimento (e a todas as obras de civilização em geral) uma independência e uma ineficácia muito maior do que elas têm efetivamente na engrenagem complexa e constringente da realidade social.

É repelida igualmente a filosofia abstrata do conhecimento alimentada pela neuropsicologia da cognição (as chamadas “ciências da cognição”), filosofia que não leva em conta a consciência em seu conjunto.

Por contra, admitindo que nenhuma comunicação pode ter lugar fora do psiquismo coletivo, em sociologia a existência dos conhecimentos coletivos e suas hierarquias ou sistemas é preponderante[2]. Estudam-se os sistemas cognitivos a partir dos tipos de sociedades globais decompondo-os segundo as classes do conhecimento que, por sua vez, podem ser (a) – mais profundamente implicados na realidade social – o conhecimento perceptivo do mundo exterior, o conhecimento de outro e o conhecimento de senso comum, estudados nesta seqüência; (b) – menos espontaneamente ligadas aos quadros sociais ou cuja ligação funcional requer o diálogo e o debate: como é o caso para o conhecimento técnico, o conhecimento político, o conhecimento científico e o conhecimento filosófico.

O conhecimento perceptivo do mundo exterior é privilegiado e dá conta das perspectivas recíprocas sem as quais não há funções estritamente sociais, enquanto os demais conhecimentos já são classes de conhecimento particular, já são funções correlacionadas dos quadros sociais e pressupõem aquele conhecimento perceptivo do mundo exterior — sem que por isso haja qualquer atribuição de valor, mas apenas a constatação de que a simples manifestação dos temas coletivos, como conjuntos complexos e abertos, é diferenciada, de fato, através da perspectivação sociológica do conhecimento perceptivo do mundo exterior, do conhecimento de outro e do conhecimento de senso comum.

Em resumo: onde se verifique essas classes do conhecimento profundamente implicadas na realidade social descobre-se a simples manifestação dos temas coletivos – os Nós, os grupos, as classes sociais, as sociedades – de tal sorte que o conhecimento aparece como obstáculo, constringente como aquilo que suscita os esforços e faz participar no real, levando à configuração da funcionalidade dos quadros sociais, como reciprocidade de perspectivas, aos quais são essas classes de conhecimento as mais espontaneamente ligadas.

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Do ponto de vista dos sistemas cognitivos em sociologia merece destaque o estudo das quatro classes de conhecimento menos espontaneamente ligadas aos quadros sociais ou cuja ligação passa pela reflexão coletiva – isto é, cuja ligação funcional requer o diálogo e o debate: como é o caso para o conhecimento técnico, o conhecimento político, o conhecimento científico e o conhecimento filosófico.

Podemos notar, juntamente com Georges Gurvitch[3], que o caráter estrutural específico desses conhecimentosse manifesta em dois níveis das variações do saber, seguintes: (a) – tanto pela efetuação de múltiplos coeficientes sociais variados (caso do conhecimento científico que, embora seja aberto ao público e desinteressado, não é conhecimento direto, mas derivado, e tem como pressuposição a acumulação, a organização e o planejamento da pesquisa); (b) – quanto pela participação direta dos interessados em preservar ou em partilhar os segredos do conhecimento (caso do conhecimento técnico e do conhecimento político).

A exceção vai para o conhecimento filosófico, queé reflexivo em segundo grau, deixando ver que o componente individual predomina sobre o coletivo.É um conhecimento que se produz quase sempre com atraso, inserindo-se com retardo nos atos mentais, cognitivos ou não.

Quer dizer o conhecimento filosófico se insere muito tarde nos outros conhecimentos já obtidos e é caracterizado pelo esforço voltado para integrar as manifestações parciais de fatos, não em simples planos de conjunto, mas nas totalidades infinitas, que superam o humano, para justificá-las (exemplo: o mundo dos valores na filosofia fenomenológica).

Portanto, essa classe de conhecimento afirma um caráter altivo, distante, esotérico, aristocrático. Todavia, o predomínio do individual não é isento de paradoxo, e o conhecimento filosófico surge de uma dialética do conhecimento sem compromisso e do conhecimento comprometido ou engajado, de sorte que a filosofia se cristaliza em doutrinas cortantes.

O conhecimento técnico é uma parte constitutiva da praxis e se integra diretamente nas forças produtivas.Mas não se limita só ao conhecimento da manipulação da matéria nem se identifica com a tecnologia

Em relação ao conhecimento técnico, a análise sociológica volta-se para evitar os mal-entendidos que estimulam a identificação com a tecnologia e para dimensionar a especificidade do conhecimento técnico, notadamente em nossa época, tendo em conta o histórico das técnicas em suas correlações com os quadros sociais.

Procura-se evitar a representação de certas filosofias espiritualistas e sua idéia de racionalidade abstrata, assinalando, contra essas tendências, que o conhecimento técnico não é simplesmente o conhecimento dos métodos empregados para alcançar os fins ideais.Além disso, evita-se também a afirmação do positivismo vulgar, que equipara o conhecimento técnico a um conhecimento científico aplicado, que seria caracterizado por sua elaboração e por sua transmissibilidade.

Em contrapartida, há que sublinhar o caráter irredutível do conhecimento técnico, que é um conhecimento “sui generis”, inspirado e penetrado pelo desejo de dominar os mundos da natureza, do humano e da sociedade; desejo de manejá-los, de manipulá-los, de comandá-los, a fim de produzir, de destruir, de salvaguardar, de organizar, de planificar, de comunicar e de difundir.

Portanto, o conhecimento técnico é uma parte constitutiva da praxis e se integra diretamente nas forças produtivas.Mas não se limita só ao conhecimento da manipulação da matéria nem se identifica com a tecnologia, já que é um conhecimento explícito enquanto se transmite, e implícito enquanto se exerce como habilidade e manipulação, sendo desprovido da exclusividade das competências tecnológicas, que são restritas aos seus detentores.

O domínio do conhecimento técnico é incomparavelmente mais vasto que o manejo da matéria e como insiste Gurvitch abarca todas as manipulações eficazes, as quais, todavia, tendem a independizar-se e a valorizar-se como manipulações precisas, transmissíveis e inovadoras.

É na observação das variações dos graus do conhecimento técnico dentro de um mesmo tipo de sociedade que a análise sociológica ressalta a importância dos segredos técnicos como critério cognitivo da especificidade dessa classe de conhecimento. Constata-se que, na sua distribuição dentro de um mesmo tipo de sociedade, os graus mais altos ficam para os “experts”,que são os possuidores dos segredos técnicos, enquanto os graus mais baixos são atribuições dos executantes de ordens recebidas, dos grupos de ofício ou dos simples homens.

É este caráter específico do conhecimento técnico, esta sua distributividade em função dos seus próprios segredos que torna a importância do conhecimento técnico desigual e inesperada para os distintos tipos de sociedades globais.

Desta forma se nota que: (1) – a evolução das técnicas nas sociedades feudais a um nível mais elevado do que haviam alcançado nas sociedades teocrático-carismáticas como o Antigo Egito não correspondiam a nenhuma evolução particular da ciência; (2) – no princípio do capitalismo, os conhecimentos técnicos se desenvolvem não em função das descobertas científicas, mas diretamente nas manufaturas e nas fábricas; (3) – a união do conhecimento técnico e conhecimento científico não se produziu efetivamente até o século XX, e somente no setor limitado da tecnologia, envolvendo o grau superior dos “experts” e dos engenheiros; (4) – a partir da metade do século XX, o conhecimento técnico começou a dominar o conhecimento científico e a reservar-lhe um papel subalterno; (5)- em nossa época há um deslocamento notável das estruturas sociais e suas obras de civilização não-técnicas pelas técnicas, situação esta que nunca havia acontecido na história das técnicas, onde eram os quadros sociais que suscitavam as técnicas novas.

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Em relação ao conhecimento científico, a análise sociológica enfatiza o equívoco das pretensões da ciência em ser desvinculada dos quadros sociais. O conhecimento científico parte de quadros operativos essencialmente construídos, justificados pelos resultados conseguidos, que chamam a uma verificação experimental.A ciência busca a união do conceitual e do empírico e, se cultiva a pretensão de ser desvinculada, será, talvez, porque é uma classe de conhecimento que tende ao desinteresse, ao “nem rir nem chorar” de Spinoza, tende para o aberto, à acumulação, à organização e ao equilíbrio.

Gurvitch observa que o conhecimento científico ocupou um lugar predominante no sistema do conhecimento somente nas estruturas capitalistas, particularmente as do capitalismo competitivo, e que é nas sociedades industriais que o mesmo entrou em competição com o conhecimento filosófico e o ultrapassou.

De acordo com este autor [4], em todo o conhecimento científico intervêm os coeficientes sociais do conhecimento, precipitando as variações do saber em função dos quadros sociais, variações tanto mais fortes quanto maior seja o desenvolvimento do próprio conhecimento científico.

Na apreciação desta situação, se observa, inicialmente, que a intervenção dos coeficientes sociais do conhecimento nas ciências exatas e nas ciências da natureza pode ser analisada sob quatro linhas, seguinte:

Primeiro: o coeficiente social do conhecimento intervém através da experiência e da experimentação, que são sempre essencialmente humanas e não apenas lógicas, e sofrem a influência do humano;

Segundo: o coeficiente social do conhecimento intervém também através da conceituação a qual, geralmente, está avançada em face da experimentação.

Quer dizer, toda a hipótese nova traz a marca da estrutura da sociedade em que se elaborou, como, aliás, já nos esclareceu C. Wright Mills [5].Nada obstante, Gurvitch acrescenta como exemplos significativos a este respeito (a) – a correspondência ideológica entre o darwinismo e a concorrência, tomada esta última como princípio em ação na sociedade da época; (b) – de maneira menos evidente que a anterior e em estado inconsciente, observa-se a correspondência entre as incertezas na microfísica e os limites à capacidade de controle que a mesma faz aparecer e que provêm da energia atômica, como fator de explosão das estruturas sociais globais.

Terceiro: o coeficiente social do conhecimento intervém através da importância das organizações privadas e públicas no planejamento da pesquisa científica, importância esta que é muito notada, já que, na época da energia atômica e da eletrônica, a pesquisa exige laboratórios ou organismos de investigação e experimentação de muito vasta envergadura, com extensão internacional;

Quarto: os coeficientes sociais do conhecimento intervêm através da vinculação que se estabelece entre as ciências e a realidade social.Ou seja, independentemente do fato de que a realidade social tanto pode dominar as ciências por efeito das forças de produção nas quais as ciências se integram como pode ser dominada por elas, os conhecimentos científicos exigem os meios adequados para a difusão dos seus resultados, estando entre estes meios de difusão o ensino, a vulgarização, as edições de bolso, o rádio ou a televisão.

No que concerne à história e à sociologia, menos comprometidas e menos ideológicas que as outras ciências do homem, voltadas estas últimas que são para sistematizar em vista de metas práticas, Gurvitch sustenta que aquelas não podem liberar-se de certos coeficientes ideológicos.

Na história e na sociologia, os coeficientes sociais do conhecimento intervêm a duplo título: (a) – em vinculação com a organização crescente da pesquisa e com a constituição cada vez mais relativista do aparato conceitual operativo; (b) – em vinculação com o tema mesmo a estudar – os temas coletivos reais-, pois as sociedades, as classes, os grupos, os Nós, estão em movimento dialético e penetrados de significados humanos.

Desta forma, a sociologia do conhecimento, que é capaz de pôr em evidência os coeficientes sociais e, desse modo, diminuir a sua importância, torna-se duplamente solicitada neste campo, alcançando a sociologia da sociologia.

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A análise do conhecimento político é sem dúvida mais complexa. Tendo pela frente um conhecimento completamente particular que ao mesmo tempo é uma combinação de muitas classes de conhecimento, tornando-o “sui generis”.

A análise sociológica diferencial apresenta uma definição do conhecimento político que concilia partidarismo e realismo e aprecia sua eficácia como o conhecimento mais ideológico que há. Todavia há que caracterizar os diferentes aspectos desse conhecimento a fim de delimitá-lo em sua relação com as demais classes do saber.

Segundo Gurvitch, o conhecimento político deve ser entendido em maneira muito próxima do conceito anglo-saxão de policy, por oposição a politcs, que designa aquele que faz política.

Todavia a análise sociológica diferencial amplia sua observação para além do âmbito da ciência e do Estado para dar conta das seguintes características do conhecimento político:

(1) – é um conhecimento tanto espontâneo quanto reflexivo: “engrenagem particular de afirmações espontâneas e reflexivas sobre a situação presente, futura e, às vezes, passada de uma estrutura ou de uma conjuntura social” — é, pois, conhecimento teórico;

(2) – é um conhecimento exterior a toda a ciência, que se elabora diretamente em uma luta social com apostas ou alternativas variadas;

(3) – é um conhecimento partidário por excelência ou diretamente comprometido do qual os militantes e os dirigentes ou “homens políticos” são os autênticos conhecedores: “têm aptidão para descobrir os obstáculos mais escondidos e conseguir juízos exatos sobre as condições reais e sobre as conjunturas propícias para a realização parcial ou total dos fins previstos”;

(4) – é um conhecimento que dispensa a pressuposição da existência de um Estado e sua ação política, já que sob o aspecto da luta social com alternativas variadas e da aptidão para descobrir os obstáculos o conhecimento político se manifesta nos diferentes tipos de sociedades arcaicas bem como nas sociedades patriarcais.

Portanto, se trata de um conhecimento específico cujo segredo liga-se à combinação da fé em um ideal com o conhecimento ou “estratégia de ação social” indispensável para contornar os obstáculos e aproveitar as oportunidades quando aparecem.

Quer dizer, o conhecimento político opera uma combinação de juízos de valor e juízos de realidade sendo observável sobretudo nos atos, nas intrigas e nas lutas em que os grupos, classes e partidos se confundem diretamente.

Em nossa época o conhecimento político é mais facilmente estudado nas resoluções dos congressos sindicais e dos diversos partidos políticos, mais do que em seus programas e suas doutrinas.

Mas a compreensão ampliada desenvolvida pela análise sociológica diferencial do conhecimento político acrescenta mais algumas características igualmente centrais.

A fusão de conhecimentos é demonstrável pela capacidade do conhecimento político em dominar a todas as demais classes do saber e penetrá-las como aconteceu nos sistemas cognitivos correspondentes ao capitalismo dirigista levando aos fascismos, por um lado, e, por outro lado, nos sistemas cognitivos correspondentes ao comunismo centralizador.

Dado que o conhecimento técnico aplicado como manipulação das fileiras de partidários e das grandes massas tem aqui um papel não desprezível, Gurvitch observa que a combinação das muitas classes do conhecimento que compõem o conhecimento político deve ser vista não como simples soma das classes de saber ali compostas, mas como sua fusão indecomponível. Fusão de conhecimentos esta demonstrável pela capacidade do conhecimento político em dominar a todas as demais classes do saber e penetrá-las, como aconteceu nos sistemas cognitivos correspondentes ao capitalismo dirigista levando aos fascismos, por um lado e, por outro lado, nos sistemas cognitivos correspondentes ao comunismo centralizador.

Segundo Gurvitch, no conhecimento político estão fusionados o conhecimento de outro e dos Nós, o conhecimento de sentido comum, o conhecimento técnico e por fim “o conhecimento direto, sem pressuposições, dos aspectos econômico e psicológicos da realidade social, através de suas manifestações nas conjunturas globais[6].

Então, podemos ver que, no foco da análise sociológica diferencial de Gurvitch está afirmado o caráter de saber político virtual ou real dos sistemas cognitivos [7] e, por esta via, está igualmente reconhecido o papel preponderante dos grupos, classes e partidos em luta social como expressão da eficácia sociológica da combinação específica entre “fé em um ideal” e “estratégia de ação social”.

Por meio desta compreensão ampliada do caráter de conhecimento político, a análise gurvitcheana encontra o fundamento da afirmação de que não há irreconciliação entre o aspecto ideológico do conhecimento político – o qual tendendo para a consciência mistificada mostra-se habitualmente impermeável à argumentação dos adversários ou até de simples contrincantes — por um lado e, por outro lado, sua aptidão para descobrir os obstáculos, seu realismo.

Daí a relevância atribuída à “influência da ideologia”, da qual nem o conhecimento político e nenhuma classe de conhecimento escapa completamente, sendo, então, permitido dizer que o “falso saber” é um elemento dos sistemas cognitivos.

Aliás, esta abordagem que observa a influência da ideologia como falso saber está igualmente contemplada no caso da “distinção sutil” de Dahrendorf a que já nos referimos, pois este autor assinala que “a má interpretação” liga-se a uma experiência notada em todas as formas de vida moral e que é uma experiência não-cognitiva, isto é, a má interpretação liga-se a uma imagem antropológica do homem como sujeito capaz de “um protesto permanente contra as exigências da sociedade”; e, ademais, a má interpretação é inerente à publicidade geral do conhecimento e serve de ideologia [8]

Mas não é tudo.Por implicar no âmbito do realismo que o caracteriza a consciência clara dos obstáculos a vencer e um sentido agudo da conduta a adotar em tal ou qual conjuntura social, o conhecimento político segundo o caso inspirará uma conduta revolucionária, extremista ou reivindicativa.

Em outras circunstâncias inspirará o compromisso, a contemporização ou até o retroceder, podendo ser ao mesmo tempo revolucionário e reformista. Gurvitch acrescenta ainda que o conhecimento político está penetrado não só de ideologia, mas também de utopias e de mitos no sentido soreliano de imagens-sinais que chamam para a ação.

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Quanto à análise das variações hierárquicas das classes do conhecimento em função dos tipos de sociedades, tem-se que o conhecimento filosófico só ocupou o primeiro lugar na cidade antiga, por um lado e, por outro lado, nas sociedades dos primórdios do capitalismo, onde está na base do “século das luzes”.Em nossa época, a filosofia se encontra suplantada pelo conhecimento técnico e pelo conhecimento político.

É nas Cidades–Estados antigas que assistimos pela primeira vez a uma elaboração consciente de doutrina política que sistematiza as experiências políticas adquiridas.Os fins fixados e as táticas múltiplas próprias para consegui-los se encontram ligados a certa tendência filosófica (sem alienar a independência que garante a especificidade do conhecimento político).

A respeito disso, Gurvitch nos oferece um esquema no qual: (1) – os sofistas são tidos por individualistas e contractualistas, decididamente democráticos em suas doutrinas, concordantes neste ponto com (2) – seu principal adversário, Sócrates, que funda sua defesa da democracia na universalidade da razão humana; (3) – Platão é tido por amigo de tiranos que exige o poder político para os filósofos, revelando-se de uma só vez “estatista, totalitário e reacionário”; (4) – quanto a Aristóteles, o mais realista, busca o “justo meio” e o encontra em um equilíbrio entre a tirania, a aristocracia e a democracia; (5)- Cícero também é contemplado como o doutrinário da Roma republicana que, como Aristóteles, também busca equilíbrios;(6)- finalmente, nota-se que o relativismo cético de Pirroe seus discípulos poderia ocultar as tendências revolucionárias das massas descontentes e desiludidas e que (7)- os estóicos de diferentes tendências se opõem a esse relativismo cético, recorrendo à virtude da submissão às leis em todas as circunstâncias e seja qual for o regime político(atitude esta que aparece como um presságio do cristianismo).

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Chegamos ao estudo do sistema cognitivo das sociedades globais que dão à luz o capitalismo.O traço marcante aqui é o despertar do Estado na forma da monarquia absoluta participando ativamente do desenvolvimento do capitalismo nascente e, nessa e por essa atividade, tratando todos os problemas políticos sob seu aspecto econômico.

Daí que os historiadores e os economistas caracterizam a organização política dessa sociedade como “despotismo esclarecido”.

Todavia, o caráter particular desse tipo de sociedade, além dessa vinculação ao “Estado ressuscitado”, inclui os começos do maquinismo, as primeiras fases da industrialização, a transformação do trabalho em mercadoria, a aparição das classes sociais propriamente ditas (estrutura de classes). O diferencial aqui é que não se pode minimizar o papel do saber como fato social nesse e para esse tipo de estrutura, a reciprocidade de perspectivas que aqui se configura entre experiência e conhecimento.

Em sociologia do conhecimento só é possível ir além das explicações por correlações funcionais e buscar o máximo de coerência do processus de reestruturação como fundado numa causalidade singular, deixando o fato social do saber como epifenômeno, somente quando se está perante um caso de desacordo preciso de quadro social e saber.

Como se sabe, é das análises de Karl Marx que se tira o melhor exemplo dessa situação, notando-se que o saber da Economia Política clássica está em desacordo com o quadro da sociedade de classes ao qual pertence.

Nesses casos, se poderá estabelecer uma determinada mudança social como a causa particular de que a estrutura é o efeito, polarização esta que, aliás, muitos tentaram fazer apressadamente para este tipo de sociedade que dá à luz o capitalismo, atribuindo ao advento do maquinismo o papel de causa singular da mudança estrutural, o que excluiria o alcance ou a relevância do saber como fato social para a reestruturação desse tipo global.

Ao falar de “diminuição do desacordo”, o sociólogo tem em vista uma comparação com as sociedades feudais, em cujo tipo nota-se um desacordo cuja intensidade é um fato novo[9], a que se conjuga um pluralismo excepcional da estrutura em si. A explicação aqui assenta-se no fato singular que se produzao fim do regime feudal, quando se efetua a aliança dos monarcas feudais com as cidades francas ou abertas, as quais compraram sua liberdadeao Estado territorial, reanimando-o.

Desta forma, é a mudança social levando à reanimação do Estado que constitui o elemento máximo de coerência da teoria para as sociedades feudais, restando, então, o saber como fato social em estado preponderantemente espontâneo e difuso, sem que seja feito valer.

Por contra, tirado do seu sono por essa aliança singular, o Estado toma a forma da monarquia absoluta, como dizíamos, constituindo na análise sociológica um traço característico das sociedades globais que dão à luz o capitalismo. Como dissemos, o diferencial aqui é que não se pode minimizar o papel do saber como fato social nesse e para esse tipo de estrutura, a reciprocidade de perspectivas que aqui se configura entre experiência e conhecimento.

Na Europa Ocidental, são os séculos XVII e XVIII os que correspondem a esse tipo de sociedade, já iniciada durante a segunda metade do século XVI, sobretudo na Grã-Bretanha.

Segundo a descrição de Gurvitch, na estrutura típica dessa sociedade global que dá à luz o capitalismo, nota-se: 1)- o predomínio do Estado territorial monárquico de grande envergadura , que atribui ao monarca o poder absoluto, e que se aliou com a burguesia das cidades e com a nobrezaligada à burocracia, dita nobreza de toga;2) – o Estado apóia aos plebeus burgueses, aos capitalistas industriais das manufaturas, aos comerciantes de envergadura internacional e, muito particularmente, aos banqueiros, quem, enriquecidos depois da descoberta do Novo Mundo, tornaram-se seus credores; 3) – e os apóia contra a nobreza de espada, contra os operários e os camponeses, substituindo assim a antiga hierarquia das dependências feudais por uma nova;

(4) – no começo, o Estado mantém as classes sociais bem controladas e considera a industrialização (notado progresso na metalurgia e nos têxteis) e a promoção do capitalismo como os meios de reforçar seu próprio prestígio político, militar, financeiro e econômico, porém, logo desempenhará o que Gurvitch chama “papel de aprendiz de feiticeiro” e, em lugar de dominar as classes sociais, será dominado por elas.

(5) – Nota-se certo descompasso entre, por um lado, o aperfeiçoamento incessante dos modelos técnicos e econômicos, cuja importância aumenta nessa estrutura e, por outro lado, o fato de que a organização da economia, prejudicada pelos vestígios das corporações de ofícios (vestígios pré-capitalistas), e o movimento demográfico, estão retardados a respeito das técnicas, assim como as invenções e suas aplicações não seguem uma curva de avanço regular.6) – Nota-se que o fenômeno social total é refreado pelo modo de operar dos estamentos não-produtivos e pelo marasmo do campo, que só se move por influência das cidades e do Estado; 7) – Nota-se também, que esse traço refreado do fenômeno global dos conjuntos sociais como um todo pesa sobre o impulso do desenvolvimento técnico e industrial.

(8) – Quanto à divisão das classes sociais nascentes notam-se nessa análise sociológica os seguintes aspectos: 8.1) – que essa divisão, fazendo-lhes concorrência e fustigando-lhes desde dentro, está em oposição: (a)-à hierarquia oficial dos corpos constituídos, formada pela nobreza, clero, “estado simples” (plebeus burgueses), camponeses, estes pagando direitos ao senhorio e dízimos; (b) – aos graus de nobreza; (c)-aos diferentes cargos, alguns dos quais se comprava. 8.2) – que as empresas econômicas novas de grande envergadura, manufaturas, fábricas, sociedades de comércio marítimo, bancos, favorecidos pela monarquia, se lhe tornam finalmente hostis, não aprovando nem a política de guerra, nem a manutenção dos privilégios da nobreza. 9)- Os grupos tradicionais como a Igreja, por um lado e, por outro lado, a família conjugal-doméstica, começam a perder sua importância, apesar de sua resistência.

(10) – Verifica-se a acentuação das massas, favorecidas pela política absolutista de nivelação dos interesses combinada com as ondas de população que afluem para as grandes cidades e com a desagregação da estrutura senhorial-feudal; 11) – nota-se grande desenvolvimento das relações com outrem ativos, favorecendo toda a classe de trocas e de pactos, embora travados que estavam pelos restos do regime de privilégios, os das barreiras entre ordens e corporações, e pela ingerência do absolutismo dito “ilustrado” na vida econômica.

(12) – Quanto aos níveis em profundidade da realidade social notam-se, em primeiro lugar, duas classes de modelos: os modelos idênticos às regras jurídicas, tomados como regulamentação minuciosa feita de cima para baixo, e os modelos técnicos, estes nascidos das fábricas, exatamente como um aspecto do transtorno da vida econômica (especialização, planejamento, modernização), ambos inovadores; em segundo lugar, nota-se a base morfológico-demográfica, incluindo todo o mundo dos produtos, como estando ligada à necessidade de mão de obra e ao problema de seu recrutamento; e em terceiro lugar, notam-se os aparelhos organizados de toda a classe, cuja burocratização começa;

(13)- Nota-se que a enorme impulsão da divisão do trabalho técnico, que supera muito a divisão do trabalho social, sendo combinada ao maquinismo, tem por conseqüência uma produtividade sem precedentes em quantidade e em qualidade ;a acumulação de riquezas, acelerada pelo descobrimento do Novo Mundo, alcança em tempo record grandes proporções, agravando os contrastes entre a pobreza e a opulência.

(14) – Na hierarquia das regulamentações sociais, o conhecimento e o direito estão na frente, e a educação em segundo lugar, liberando-se da tutela eclesiástica; 15) – Se assiste à vitória do natural sobre o sobrenatural, da razão sobre toda a crença; bem como ao crescimento do individualismo em todos os campos, e ao nascimento da idéia do “progresso da consciência”, sendo a reter que a expressão mais completa da civilização e da mentalidade própria dessa sociedade no seu apogeu é a “época das luzes”, que faz o homem confiar no seu êxito, no das suas empresas técnicas e industriais.

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Quanto ao saber como fato social para este tipo de estrutura e de sociedades globais que dão à luz o capitalismo, saber este cujo papel não se pode minimizar favorecendo as correlações funcionais, Gurvitch assinala que o primeiro lugar no sistema cognitivo é compartilhado pelo conhecimento filosófico e o conhecimento científico, que se completam mais do que competem.

Com efeito, nosso autor insiste a respeito deste papel significativo do saber, traçando, de inicio, um esboço histórico do salto prodigioso da ciência desde a Renascença, cujos expoentes, como se sabe, são os seguintes: Copérnico (1473-1543), Kepler (1571-1630), Galileu (1564-1642), nos conhecimentos astronômicos; Newton (1643-1727) inventa o cálculo infinitesimal no mesmo momento em que Leibniz (1646-1716) também o faz de outra forma, ambos fundadores da Física mecânica; a química moderna nasce com Lavoisier (1743-1794); as ciências do homem se desenvolvem dividindo-se em muitos ramos, seguintes: a Economia Política é criada por Adam Smith e David Ricardo e, com outra forma, pelos fisiocratas; a ciência política se afirma com Hobbes, Spinoza, Locke, Montesquieu, Rousseau, os enciclopedistas, Condocert, e Destut de Tracy (Montesquieu já pressente o advento da sociologia).

Nota-se, igualmente, a reforma do ensino, cada vez mais laico, a acelerar o desenvolvimento do conhecimento científico, sobretudo a partir de 1529, com a fundação do Collège de France.Todos os grandes filósofos participam das discussões científicas (com alguma reserva, Pascal e Malebranche) já que a laicização do saber filosófico, cada vez mais independente da teologia, favorece sua tendência a fazer das ciências a base de suas reflexões.

Nota-se, entretanto, que o contrário não se verifica e os cientistas mostram pouco interesse pelo saber filosófico como tal.Mesmo assim, o prestígio do conhecimento filosófico está em que é o melhor colocado para defender a ciência contra a teologia e, além disso, são os filósofos quem amiúde emitem hipóteses verdadeiramente científicas, como Descartes e Leibniz.

Nesta descrição proporcionada pela análise de Gurvitch, o saber filosófico acolhe mais o racional sobre o místico, excetuando a Pascal, um pouco a Malebranche e a Spinoza, místico da racionalidade; da mesma maneira, acolhe mais o adequado sobre o simbólico e ainda favorece a combinação do conceitual e do empírico, do especulativo e do positivo e, finalmente, o predomínio da forma individual sobre a forma coletiva, esta última, por sua vez, muito relegada, aqui, no saber filosófico.

O conhecimento científico, por sua vez, tem a acentuação do elemento racional como exclusiva sua; aqui, o conceitual predomina sobre o empírico e a forma coletiva é preponderante; nota-se a formação de equilíbrio do positivo e do especulativo, assim como do simbólico e do adequado.

Quanto ao segundo lugar no sistema cognitivo dessas sociedades que dão à luz o capitalismo, corresponde ao conhecimento perceptivo do mundo exterior, com as seguintes características: (1) – a rápida promoção desse conhecimento deve-se à criação de novos meios de comunicação, que acompanha a extensão do comércio em escala mundial, favorecendo o conhecimento dos oceanos e de continentes até então desconhecidos; além disso, o aumento e o melhoramento dos caminhos que cruzam os países ocidentais, favorecendo a maior circulação das diligências, permitiu comunicações relativamente rápidas;

(2) – todavia, a análise de Gurvitch considera mais importante as novas percepções e conceituações das amplitudes e dos tempos em que se encontra imbricado o mundo exterior: 2.1) – nota-se uma competição entre os tempos “adiantado a respeito de si” e o “tempo atrasado”, correspondendo a uma estrutura de uma só vez inovadora e anacrônica, competição esta que anuncia um tempo em que o passado, o presente e o porvir irão entrar em conflito rapidamente, numa situação explosiva que favorecerá o porvir, com o “tempo surpresa” ameaçando quebras nas poderosas organizações da superfície; 2.2) – essa competição entre o tempo adiantado e o tempo atrasado aplica-se igualmente ao fenômeno social total global subjacente à estrutura, de tal sorte que encontramos, por um lado, que o conhecimento do mundo exterior, a vida econômica, as técnicas industriais, o comércio internacional, o saber filosófico, a burguesia e sua ideologia, estão essencialmente adiantados em relação à estrutura, enquanto que, por outro lado, a nobreza, o clero, a vida agrícola, o campesinato, estão atrasados a respeito da mesma. A própria monarquia absoluta está adiantada a respeito de suas iniciativas e atrasada quanto a sua organização e suas conseqüências.

(2.3) – Desta forma, Gurvitch avalia que a quebra do Antigo Regime foi muito mais espetacular do que as revoluções inglesa e holandesa ou do que as guerras religiosas e civis, incluindo nesta lista a guerra da independência nos Estados Unidos; e que esta quebra do antigo regime não se apagará jamais da memória coletiva das sociedades que virão.

(2.4) – Temos, então, que esses tempos e amplitudes em que se encontra imbricado o mundo exterior, embora rico em incógnitas e em possibilidades novas, se fazem particularmente mensuráveis com o lema da classe burguesa que toma consciência da sua existência: “tempo é dinheiro”, a que se junta: “todos os caminhos conduzem ao ouro, ou, pelo menos, ao dinheiro”.Quer dizer, todas as amplitudes são apreciadas menos pelo sistema métrico e mais pelo tempo necessário para percorrê-las, decorrendo desta quantificação que o mundo exterior se torna um objeto de estudo científico.

Neste ponto, cabe sublinhar a observação notada por Gurvitch de que é decorrente desse modo de apreciar as amplitudes pelo tempo necessário para percorrê-las, a posição de relevo alcançada conjuntamente pelo conhecimento perceptivo do mundo exterior e pelo saber científico no sistema cognitivo do tipo de sociedades que dão à luz o capitalismo, posição de relevo esta que, prossegue nosso autor, é muito mais relevante aqui do que em muitos outros tipos de sociedade, sem esquecer que, assim, o saber científico prepara o salto que, na etapa seguinte do capitalismo, o levará ao primeiro lugar.

No terceiro lugar desse sistema cognitivo vem o conhecimento técnico, que deu um salto considerável, e isto não só na indústria (ramos dos têxteis e da metalurgia), mas na navegação e na arte militar.Reitera Gurvitch – como já o notamos – que o aperfeiçoamento do conhecimento técnico levando ao maquinismo se encontra em relação direta não com as aquisições da ciência, mas com as melhoras de ordem prática – como já fora assinalado por Adam Smith e Karl Marx, apesar de suas diferenças.

Quer dizer, Karl Marx tivera razão ao insistir no primeiro tomo de “O Capital” de que não são as invenções técnicas as que tiveram por resultado a profusão de fábricas, mas, pelo contrário, foi a divisão do trabalho técnico nas grandes fábricas cada vez mais numerosas a que criou a necessidade de técnicas mecanizadas e provocou assim a introdução das máquinas, tal como confirmado pelo estudo das técnicas industriais dos séculos XVII e XVIII.

Por sua vez, o conhecimento político, tanto implícito ou espontâneo quanto explícito ou formulado (em proposições, aforismos, doutrinas), ocupa o quarto lugar desse sistema cognitivo, ainda que possa parecer surpreendente essa colocação tão baixa em face do meio fértil em intrigas constituído pelos grupos privilegiados no Antigo regime.

Há que distinguir três aspectos seguintes: 1) que o conhecimento político implícito está, evidentemente, estendido na corte, e que é função da rivalidade: (a) – da nobreza de espada e da nobreza de toga; (b) – de toda a nobreza e da burguesia em ascensão; (c) – bem como entre as diferentes frações da burguesia: a industrial, a comercial, a financeira; 2) – que esse conhecimento político espontâneo se encontra ausente no meio das classes populares, representadas pelos operários das fábricas e pelo “campesinato”, que, derrotados pelas mudanças de estruturas que nada lhes traz de benefício, não sabem o que fazer ou que tática adotar numa situação que, em geral, lhes é muito desfavorável e Gurvitch nos lembra que a consciência de classe e a ideologia dessas classes sociais populares não se formarão antes do século XIX, e muito depois das grandes comoções da Revolução francesa.

(3) – Na medida em que se mantém, o Antigo Regime necessita de uma política que não leva geralmente em conta os grupos de interesse, por privilegiados que sejam, quer dizer, as disputas políticas e, conseqüentemente, o conhecimento político das pessoas, são de importância secundária para o absolutismo.

Por sua vez, esses grupos de interesses (os que têm futuro e os mais adiantados e clarividentes) encontram uma compensação na elaboração das doutrinas políticas, cujo esquema tirado da análise de Gurvitch é o seguinte: (a) – na Inglaterra, Thomas Morus (“Utopia”, 1516) e Francis Bacon (“Nova Atlântida”, inconclusa), durante a Renascença; posteriormente, nos séculos XVII e XVIII, os escritos de Hobbes e Locke correspondem, nessa análise sociológica, às aspirações da burguesia ascendente, como quadro social do conhecimento, que, finalmente, só então triunfará; (b) – na França: os fisiocratas, os enciclopedistas, Turgot, J.J.Rousseau, terão influência desde o começo e durante a revolução, e suas doutrinas tratam tanto do fim ideal quanto da tática a empregar para alcançá-lo, tipificando o conhecimento político formulado ou elaborado; (c) – na Holanda: o “Tratado Político” (1675-1677) de Spinoza faz pressentir segundo Gurvitch certos elementos do pensamento de Rousseau.

Nota-se que nas doutrinas políticas (e nas ideologias em que se inspiram), apesar do predomínio da forma racional, “o simbólico, o especulativo, o conceitual, e o individual são sempre muito acentuados”, mesmo naquelas doutrinas mais preocupadas pela racionalidade, pelo empirismo, pela objetividade, pela adequação.Já no conhecimento político espontâneo, a forma racional se combina à forma empírica, estando igualados em importância o positivo e o individual.

Quanto à sociologia do conhecimento de senso comum, aqui, neste tipo de sociedades globais dando à luz o capitalismo, conhecimento encontrado em penúltimo lugar, está marcado pela grande multiplicidade dos meios que lhe servem de quadro.Quer dizer, está consideravelmente confundido pelo seguinte: por um ambiente tão novo e imprevisto; pelo advento do começo do capitalismo e do maquinismo; pelo descobrimento do Novo Mundo; pela política absolutista de nivelação dos interesses; pelo debilitamento da igreja; pela afluência das grandes massas da população às cidades, etc.

Assim, esse conhecimento de senso comum se encontra disperso em vários meios, seguintes: (a) – entre os cortesãos, os representantes da nobreza de espada e os da nobreza de toga; (b) – nos diferentes grupos da burguesia, no novo exército profissional, entre os marinheiros, etc., ou ainda, entre os operários da fábrica.Seu refúgio será, então, a vida rural e os círculos restritos da família doméstica conjugal.Gurvitch nos lembra a observação de Descartes de que o senso comum é “a mais compartilhada” das faculdades, avaliando que o mestre do racionalismo moderno resistia desta maneira à tentação de negar a existência mesma dessa classe de conhecimento, “provavelmente pressionado pelas contradições crescentes entre os diversos beneficiários do conhecimento de senso comum”.

Enfim, nota-se a disputa entre a forma mística e a forma racional desse conhecimento, em particular no clero e no “campesinato” (“paysannerie”).

No último lugar desse sistema cognitivo das sociedades globais que dão à luz o capitalismo vem o conhecimento de outro e dos Nós, que, 1) – como o conhecimento de senso comum, também se encontra em grande dispersão pelos diferentes meios relacionados com a atualização da sociabilidade das massas, com a política de nivelação do absolutismo e com a desintegração dos grupos herdados da sociedade feudal, estando em nítida regressão a identificação do conhecimento dos Nós ao “espírito de corpo”.

(2) – Todavia, se nota um novo conhecimento de outro como compensação parcial para o rebaixamento desse mesmo conhecimento de outro como de indivíduos concretos, lembrando-nos que, tanto na classe proletária nascente como na classe burguesa ascendente, ambas penetradas da ideologia de competição e de produção econômica, o conhecimento de outro é quase nulo.

Nesse novo conhecimento de outro, se trata de uma tendência para universalizar a pessoa humana que se relaciona a Rousseau, com sua teoria da Vontade Geral idêntica em todos, e a Kant, este, com seu conceito de “Consciência Transcendental” e de “Razão Prática”, que chega à afirmação da “mesma dignidade moral” em todos os homens.Quer dizer, tem-se um conceito geral do outro fora de toda a concreção, de toda a individualização efetiva, acentuando-se as formas racional, conceitual, especulativa e simbólica, com tendência frustrada a reunir o coletivo e o individual no geral ou no universal.

Para encerrar, notam-se que as sedes de intelectuais encarregados de manter esse sistema cognitivo, desenvolvê-lo e difundi-lo, se enriqueceram com novos grupos e novos membros, destacando-se, junto aos filósofos, aos estudiosos, aos docentes, a entrada dos representantes das “belas letras”, dos escritores, dos doutrinários políticos e, por fim, dos inventores de técnicas novas.

***

Leia também “Sociologia do Conhecimento: Notas para uma Introdução

Artigo elaborado por Jacob (J.) Lumier

©2008 by Jacob (J.) Lumier.

[1] Gurvitch, Georges (1894-1965): “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, Trad. Mário Giacchino, Monte Avila, Caracas, 1969, 289 pp. (1ªedição em Francês: Paris, Puf, 1966).

[2] Se o conhecimento não é separado da mitologia, a compreensão dos sistemas cognitivos passa pelo estudo do coeficiente existencial do conhecimento – incluindo os coeficientes humanos (aspectos pragmáticos, políticos e ideológicos) e os coeficientes sociais (variações nas relações entre quadros sociais e conhecimento).

[3] Gurvitch, Georges (1894-1965): “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, op.cit.

[4] Gurvitch, Georges: “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, op.cit.

[5] Wright Mills, C.: ‘Consecuencias Metodológicas de la Sociología del Conocimiento’, in Horowitz, I.L. (organizador) : ‘Historia y Elementos de la Sociología del Conocimiento – tomo I’, artigo extraído de Wright Mills, C. : ‘Power, Politcs and People’, New York, Oxford University Press, 1963 ; tradução Noemi Rosenblat, Buenos Aires, EUDEBA, 3ªedição, 1974, pp.143 a 156.

[6] Gurvitch, Georges: “Los Marcos Sociales Del Conocimiento”, op.cit. pág. 42.

[7] Lembrando que o conhecimento não é separado da mitologia.

[8] Dahrendorf, Ralf: “Ensaios de Teoria da Sociedade”, op.cit. págs. 114 a 121.

[9] Gurvitch, Georges: “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, op.cit. pág.189.

  1. [...] Sobre o autor Jacob (J.) Lumier.|O Eleitor, a Democracia e o Voto Obrigatório no Brasil.|A Dialética Sociológica, o Relativismo Científico e O Ceticismo de Sartre: Aspectos Críticos de um debate atual do século XX.|Charter of Principles of the World Social Forum _WSF (FSM)|LITERATURA E POLÍTICA NO SÉCULO VINTE: a aspiração aos valores como afirmação do caráter político na Leitura sociológica da obra literária de James Joyce.|A Experiência da Laicização na Origem da Técnica e da Moralidade Autônoma.|Sobre a Crítica da Cultura.|A Utopia do Saber Desencarnado, a Crítica da Ideologia e a Sociologia do Conhecimento.|As Aplicações da Sociologia do Conhecimento.| [...]

  2. [...] As Aplicações da Sociologia do Conhecimento. [...]

  3. [...] As Aplicações da Sociologia do Conhecimento Vista Sucinta da Sociologia dos Conhecimentos Técnico, Político, Científico e Filosófico. [...]

  4. [...] As Aplicações da Sociologia do Conhecimento. [...]

  5. Leia também A Utopia do Saber Desencarnado, a Crítica da Ideologia e a Sociologia do Conhecimento link:

    http://leiturasociologica.wordpress.com/a-utopia-do-saber-desencarnado-a-critica-da-ideologia-e-a-sociologia-do-conhecimento/

  6. Leia os escritos do autor sobre Sociologia do Conhecimento – 6 textos.- na Web do Scribd.
    link: http://www.scribd.com/collections/4296524/sociologia-do-conhecimento

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