Indivíduo e Sociedade em Sociologia Diferencial:
Notas sobre Ambiguidade e Imanência Recíproca
Jacob (J.) Lumier
Apresentação
Os fatos sociais exercem sobre os indivíduos uma preeminência psicológica e moral.
Sociólogos notáveis chegaram à compreensão de que o indivíduo volta a encontrar o social igualmente nas profundidades do seu próprio Eu. Os dois termos “indivíduo e sociedade” são de uma ambiguidade extrema que se torna um impasse se nos obstinarmos em considerá-los antitéticos.
As fórmulas da ambiguidade serão postas em relevo na análise sociológica diferencial ao rejeitar não a realidade do indivíduo e da sociedade, mas unicamente o erro inaceitável de que, ao invés de enfocar o indivíduo na sociedade com suas desigualdades, esses termos sejam tratados como entidades exteriores uma a outra.
Neste artigo, além de assinalar com relevo as quatro contra-argumentações ao tratamento equivocado, situaremos os vários resultados da análise sociológica diferencial conforme a especificidade do problema da origem do conflito entre a sociedade e o indivíduo, em três linhas seguintes: (a) origem do conflito em certas ilusões de ótica, (b) origem do conflito no efeito de disparidade, e, finalmente, (c) origem do conflito em montagens inadequadas sobre níveis diferentes da realidade social.
Em conclusão, mostraremos que a aplicação dos procedimentos operativos da dialética sociológica pode levar a apreender todas as sinuosidades efetivas das interpenetrações e dos conflitos sempre relativos, mas sempre possíveis entre o social e o individual.
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Indivíduo e Sociedade em Sociologia Diferencial:
Notas sobre Ambiguidade e Imanência Recíproca
Jacob (J.) Lumier
Sumário
Apresentação. 7
Ilusões de Ótica. 11
►No começo do século XX. 11
►Na segunda metade do século XX. 12
►Ilusões de ótica e as falsas interpretações. 13
Grupos e Papéis Sociais. 14
As variações de sentido. 16
Modelos e Condutas. 17
►O efeito da disparidade. 18
►Símbolos estandardizados e efervescência. 19
►Montagem dos conflitos. 20
Paralelismo Dialético. 21
►O indivíduo na sociedade. 22
►Os fenômenos psíquicos. 23
As Consciências e os Quadros Sociais. 24
►O social e o individual 26
Índice remissivo. 28
Perfil do autor 29
Ilusões de Ótica
Do ponto de vista do realismo sociológico, como se sabe, é importante a riqueza da psicologia coletiva contida nos termos indivíduo e sociedade.
Bem antes do aparecimento da sociologia, o suposto conflito entre a sociedade e o indivíduo relevava de exercícios retóricos aos quais se ligavam as disputas entre as teses individualistas e coletivistas, ou entre as posições contractualistas e institucionalistas. A sociologia do século XIX deixou-se envolver nessas discussões inócuas em que se tratava do indivíduo ou da pessoa humana, por um lado e, por outro lado, a sociedade ou a coletividade, como se tais termos fossem entidades abstratas, já completamente acabadas e irredutíveis defrontando-se em inexorável e eterno conflito.
Mas essas querelas prosseguiram depois do nascimento da sociologia até o começo do século XX. Daí a exigência de crítica aos erros principais que se trata de eliminar, para evitar sua interferência prejudicial na sociologia diferencial.
►No começo do século XX.
Em maneira preliminar, se constata haver sido dessas discussões que apareceu a corrente das teorias de compromisso ou de interação (Simmel, Von Wiese, Weber, Mac Iver, e muitos outros).
A essas teorias de interação se opuseram, em França, Durkheim e seus colaboradores; nos Estados Unidos, Cooley e seus seguidores, ambos argumentando que, por irredutíveis aos indivíduos, os fatos sociais exercem sobre eles uma preeminência psicológica e moral.
Vale dizer, em maneira justa, Durkheim e Cooley chegaram à compreensão de que o indivíduo volta a encontrar o social igualmente nas profundidades do seu próprio Eu (constatação esta já em Mauss, Halbwachs, Bouglé) [1].
►Na segunda metade do século XX.
Para a sociologia da segunda metade do século XX, o debate a propósito da relação entre o indivíduo e a sociedade foi considerado encerrado. Do ponto de vista dos fatos, não há como continuar a aceitar que se considere a sociedade e o indivíduo como entidades exclusivas e exteriores uma a outra, quando se trata em realidade de elementos impensáveis um sem o outro, cuja vida consiste precisamente em uma participação mútua.
Note-se que, na qualidade de pensamento que representou a muitos sociólogos do século XX, o crédito pelo reconhecimento da participação mútua é atribuído por Georges Gurvitch [2] ao filósofo americano John Dewey, por sua afirmação de que os dois termos indivíduo e sociedade são de uma ambiguidade extrema e que essa ambiguidade torna-se um impasse se nos obstinarmos em considerar os dois termos como antitéticos.
A ambiguidade assim detectada por Dewey em enfoque produtivo liberando-a do falso antagonismo será posta em relevo na análise sociológica diferencial ao rejeitar não a realidade do indivíduo e da sociedade, mas unicamente o erro inaceitável de que esses termos sejam tratados como entidades exteriores uma a outra.
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►Ilusões de ótica e as falsas interpretações.
→Em PRIMEIRO LUGAR, a análise enfatiza a sociedade como compreendendo os outros, os Nós, os Eu que equivocadamente se quer opor-lhe, mas que não existiriam sem ela, da mesma maneira em que a sociedade não existiria sem eles. É em razão dessa imanência recíproca que encontramos a sociedade nas profundidades do Eu e encontramos o Eu nas profundidades dos Nós ou da sociedade.
→Em SEGUNDO LUGAR, tendo em conta, ademais da ambiguidade, a imanência recíproca que acabamos de assinalar, o conflito entre a sociedade e o indivíduo se apresenta à análise como o problema da origem deste conflito em certas ilusões de ótica, às quais se juntam falsas interpretações que se tratam aqui de ultrapassar.
►O estudo dos conflitos simultaneamente produzidos em os Nós e na sociedade, e a ilusão em tomá-los como conflitos entre a coletividade e os seus membros.
Vale dizer a análise sociológica desenvolvida desde o ponto de vista da imanência recíproca, fundamental na psicologia coletiva, comprova como veremos adiante que os conflitos simultaneamente produzidos em os Nós percebidos como próprios dos sujeitos que os experimentam – os Nós próprios –, por um lado e, por outro lado, igualmente produzidos na sociedade são conflitos que tendem a ser considerados por esses Nós próprios, equivocadamente, como conflitos entre a coletividade e os seus membros.
Grupos e Papéis Sociais
À imanência recíproca do Eu e dos Nós corresponde uma simultaneidade dos fatos sociais conflitantes que se verificam sob o aspecto individual e sob o aspecto dos grupos.
Deste modo, podemos destacar os seguintes casos estudados adequadamente em dialética sociológica:
- (a) Análise sociológica da situação humana e social conflitante de produtores e consumidores.
A análise da situação conflitante de produtores e consumidores comprova que o conflito social aí característico ocorre ao mesmo tempo sob o aspecto individual (o Eu que se encontra integrado em os Nós) e sob o aspecto dos grupos em luta (os Nós que se encontram nas profundezas do Eu).
É o caso, por exemplo, de um autor de obras literárias que deseja obter o preço mais elevado possível para sua obra ao passo que, como consumidor, deseja adquirir obras por preço compensador. Vê-se então que o conflito envolve o para-mim da reflexão própria daquele autor, seu foro íntimo, como indivíduo singular personalizado afirmando-se na cisão dos seus diversos Eu, e, em conexão com essa cisão, vê-se simultaneamente um conflito que pode efetivamente dividir os grupos (estruturados ou não) de produtores e de consumidores.
- (b) Análise da série conflitante dos diferentes Eu e dos diferentes grupos.
Em uma análise dos conflitos que opõem os diferentes Eu de um mesmo indivíduo representando diversos papéis sociais, por um lado e, por outro lado, os conflitos que opõem os diferentes grupos nos quais ele participa, comprova a não pertinência em considerarem esses fatos sociais conflitantes como um conflito entre a sociedade e o indivíduo.
É o caso em que cada membro de um Nós próprio pertence ao mesmo tempo a vários grupos sociais particulares, e em cada um assume certo papel social podendo, então, desempenhar um número considerável de papéis sociais.
Como se sabe esses papéis sociais simultâneos que um indivíduo representa, seja como pai, marido ou filho; seja como empregado, operário, engenheiro ou patrão; seja como militante, cidadão, produtor ou consumidor, entram sem cessar em conflito, que pode ser verificado em duplo aspecto: (a) – como um conflito no seu foro íntimo, onde se opõem os diferentes Eu daquele indivíduo, e (b) – na realidade social, onde se opõem os diversos grupos aos quais pertence o indivíduo. Portanto, não há em fatos conflito entre a sociedade e o indivíduo que nela se encontra integrado ou nela participa [3].
As variações de sentido
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