Psicologia da Forma e Consciência Coletiva: observações sobre o aproveitamento da Gestalttheorie em sociologia.
No exame do problema da relação entre o psíquico e o lógico há que considerar não dois, mas três termos, a saber: por um lado, o psiquismo individual e o psiquismo coletivo, por outro lado, o mundo das idéias lógicas, da razão, do Logos, o qual, na realidade dos fatos – isto é, sem interpretação filosófica prévia – se encontra em situação equivalente relativamente tanto à consciência coletiva quanto à consciência individual.
Deste ponto de vista sociológico, a pretendida redução da consciência individual à sensibilidade e da consciência coletiva à razão revela-se um pressuposto falso e que implica múltiplas contradições.
Com efeito, a identificação da consciência individual como puramente sensível implica torná-la nula.
A contra-argumentação sociológica é inspirada na Gestalttheorie, a saber: (a) – toda a consciência não é somente uma tensão virtual do fechado em direção ao aberto, mas é ainda uma tensão entre as múltiplas sensações e a sua integração nas totalidades; (b) – ao fazer ver que as sensações particulares não passam de abstrações intelectuais de totalidades apreendidas intuitivamente a teoria psicológica da forma ou Gestalttheorie [1] demonstra toda a impossibilidade na redução da consciência a sensações dispersas (redução imprópria esta que segundo Gurvitch reforçou a concepção da consciência individual fechada em Durkheim).
Sem embargo, o sociólogo afirma a evidência de que existem os elementos sensíveis da consciência coletiva, existem os sentidos coletivos de conservação e de defesa, os sentidos das paixões e das inclinações coletivas bem como, por sua vez, é evidente a existência das funções intelectuais na consciência individual (estados, opiniões, atos).
Mas não é tudo. Contra o argumento durkheimiano que identifica a consciência coletiva seja com a razão, seja com a consciência pura, seja com a inteligência ideal ou Logos, cabe lembrar ninguém menos que o próprio Durkheim se contradizendo a respeito disso.
Com efeito, Durkheim afirma a existência de correntes coletivas que arrastam para o suicídio ou para o crime, tanto quanto fala de pânicos coletivos, etc.
Além disso, o mestre insiste nas tendências, nos sentimentos, nas crenças, nas aspirações, nas efervescências coletivas que podem referir-se aos estados e opiniões tanto quanto aos atos mentais e funções intelectuais, mas que se opõem em todos os casos à razão universal.
Quer dizer, o sociólogo põe em relevo que, no aspecto da dupla existência de elementos sensíveis e de funções intelectuais, há dialética entre a consciência individual e a consciência coletiva – há tendência para a complementaridade, para a implicação mútua e para a reciprocidade de perspectiva – de tal sorte que esse dualismo elementos sensíveis / funções intelectuais encontra-se tanto em uma quanto na outra.
Acresce que, em acordo com Gurvitch, as consciências individuais podem interpenetrar-se e fundir-se (a) – por vezes nas suas sensações e paixões, (b) – por vezes nas suas representações e nos seus sentimentos, (c) – por vezes nos seus atos, nas suas intuições e nos seus juízos – sejam estes marcados pela preponderância da inteligência, da emotividade ou da vontade.
►Quanto à interpretação da consciência coletiva identificada ao Logos como sendo única, unificada, coerente, harmoniosa, Gurvitch observa que é pura abstração, mesmo que seja identificada psicologicamente como consciência coletiva da humanidade.
Quanto mais ampla é a consciência coletiva menos intensa ela é, de sorte que, se a universalidade lógica dependesse da extensão da consciência coletiva seria a melhor prova da sua impossibilidade.
Quer dizer, essa universalidade seria sempre seccionada pelas consciências coletivas mais restritas, como as dos diferentes agrupamentos sociais particulares, as das diferentes classes sociais e as das diferentes sociedades globais, consciências coletivas essas que se contradizem e entram em conflitos inextricáveis.
Além disso, as consciências coletivas divergentes e até antagônicas se opõem apoiando-se em os Nós em conflito no seio de cada agrupamento, mesmo o mais íntimo e reduzido em número.
Enfim, toda a consciência seja ela coletiva, seja individual está envolvida em dialética. E Gurvitch sentencia: a consciência coletiva não é nem mais nem menos coerente que a consciência individual.
Os conflitos das consciências coletivas em um agrupamento particular ou em uma sociedade global assim como os conflitos entre as consciências de diferentes sociedades são mais agudos ainda do que os dos psiquismos individuais.
O erro da identificação da consciência coletiva com a necessidade e pretensamente com a universalidade do Logos é uma construção arbitrária que elimina o pluralismo fundamental da realidade social revirando-o em benefício de um monismo social dogmático ou preconcebido [2].
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[1] A compreensão de que as sensações particulares não passam de abstrações intelectuais de totalidades apreendidas intuitivamente, descoberta pela teoria psicológica da forma ou Gestalttheorie ao demonstrar toda a impossibilidade na redução da consciência a sensações dispersas, combinada às demais teorias de consciência aberta (Bergson, Husserl, Bachelar), tornou-se uma compreensão básica em ciências humanas e sua aplicação em sociologia deu lugar ao hiperempirismo dialético e à descoberta dos fenômenos psíquicos totais. Cf. Gurvitch: “Dialectique et Sociologie”, Paris, Flammarion, 1962, 312pp., col. Science. Cf. Do mesmo autor: “Tratado de Sociologia – Vol.2”, Revisão: Alberto Ferreira, Iniciativas Editoriais, Porto 1968, (1ªedição Em Francês: PUF, Paris, 1960). Cf. Lumier, Jacob (J.): “Psicologia e Sociologia”, e-book, pdf 158 págs, OEI, 2008, link http://www.oei.es/noticias/spip.php?article2005
[2] Gurvitch,Georges (1894-1965): “A Vocação Actual da Sociologia – vol.I: na senda da sociologia diferencial”, tradução da 4ªedição francesa de 1968 por Orlando Daniel, Lisboa, Cosmos, 1979, 587pp. (1ªedição em Francês: Paris, PUF, 1950). “A Vocação Actual da Sociologia –vol.II: antecedentes e perspectivas”, tradução da 3ªedição francesa de 1968 por Orlando Daniel, Lisboa, Cosmos, 1986, 567 pp. (1ªedição em francês: Paris, PUF, 1957). “Tratado de Sociologia – vol.1″, revisão: Alberto Ferreira, Porto, Iniciativas Editoriais, 1964, 2ªedição corrigida (1ªedição em Francês: Paris, PUF, 1957). “Tratado de Sociologia – Vol.2”, Revisão: Alberto Ferreira, Iniciativas Editoriais, Porto 1968, (1ªedição Em Francês: PUF, Paris, 1960). Op.Cit.






